O nome das vacas

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O NOME DAS VACAS VIVINA DE ASSIS VIANA

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É quase meia-noite, hora de menino estar dormindo sonhando com anjos e assombrações. Principalmente menino de fazenda. Mais principalmente ainda menino de fazenda de avô e avó.

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Perdi o sono desde o dia em que ganhei uma égua do meu avô. Fico a noite inteira pensando nela. Nela não, no nome dela. No nome dela não, no nome que ela não tem. Acabo cansado, ouvindo o galo cantar na madrugada fria lá do galinheiro. O galo canta, um galo carijó, grande, bonito, meu avô pula da cama. Escuto os barulhos dele na cozinha acendendo o fogo do fogão a lenha, tossindo, tomando café, abrindo a tramela do portão pra ver o tempo lá de fora e sentir o cheiro das vacas chegando no curral.

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Acende o lampião com cheiro de querosene num tição de lenha, deixa um facho de claridade entrando pelo portão encostado – ele só pode ser fechado por dentro, pela tramela -, desce os onze degraus da escada da cozinha e vai tirar leite. No barracão, meu avô apaga a lamparina com um sopro só – eu me lembro das velas dos meus aniversários – e liga o rádio.

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Lá tem luz e música. As vacas gostam. Meu avô me contou, num dia em que acordei junto com ele, no canto do galo carijó: Assim elas dão mais leite, meu filho. Muito mais. Fiquei pensando que ele devia me chamar de neto. Filho dele é meu pai, o Lucrécio, que me chama de Marden – nada de mais, meu nome é esse mesmo -, de filho – nada de mais também, sou filho dele mesmo -, de filhote – fico me sentindo um passarinho -, de pitico, pitiquinho, pequetitinho e outros nomes parecidos com esses.

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O rádio do meu avô canta “há tempos fiz um ranchinho pra minha cabocla morar, pois era ali nosso ninho, bem longe desse lugar”, e ele começa a chamar as vacas, cada uma com um nome escolhido por ele. Os retireiros – empregados da fazenda que começam a tirar leite algum tempo depois do meu avô, o galo deles, que não sei se é carijó, deve cantar mais tarde – vão chegando e entrando no barracão de réguas de madeira.

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As vacas atendem ao chamado da voz conhecida: Minerva, Magnólia, Roma, Sota – essa tem nome de carta de baralho, mesma coisa que dama, é mocha, não tem chifre, a gente enxerga de longe -, Cabrocha, Garrincha – essa meu avô disse que não vende porque minha tia foi criada com o leite dela, então a vaca é um pouco mãe dela também, e quem é que vende mãe? -, Granada, Tirolesa, Andorra, Lindóia, Guatemala, Baiana – essa é brava, corre atrás da gente, meu primo Fabiano diz que ela é vaca “pegadora” e que ele vai tomar leite dela pra virar menino “pegador”.

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Fico pensando no monte de vacas do meu avô, cada uma com um nome escolhido por ele. O dono. Quase lhe pedi que escolhesse um nome pra minha égua. Cheguei a abrir a boca. Fechei de novo, bem depressa, correndo, voando, como a égua Andorinha da minha tia Celeste.

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Se ele escolhesse um nome muito bonito, eu ia ter de aceitar. E no fundo, bem no fundo, não quero ninguém escolhendo nome pra minha égua alazã com uma faixa branca na cara. Acho que ela também não quer. O nome que ela quer quem vai escolher sou eu. O dono. O nome das vacas. Belo Horizonte: Formato. 1999. p 5 – 14.

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