Cronicas Imaginarias: Trem Fantasma

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http://cronicas-imaginarias.blogspot.com Crônicas Imaginárias | 2010 | Creative Commons | Direitos Reservados O garoto tremia em silêncio na fila do brinquedo mais temido. Será que deveria confessar á mãe que o seu medo era tamanho que já não importava ser motivo de chacota diante das outras crianças? Que importava ser o medroso? O importante era fugir dali a tempo, daquela carranca monstruosa, daquele castelo com olhos de demônio que o fitavam entre dezenas de outras pestinhas eufóricas, provavelmente porque não percebiam o perigo que as aguardava á frente. “Vai dar tudo certo, você vai ver como é legal”, disse a mãe, enquanto deixava a mocinha que organizava a fila ajeitar as travas do carrinho aonde iriam seu filho e outra criança pouco maior. “Você não vem, mãe?” “ Vai você filho, vai ser legal. É tudo de mentirinha, tá bom?” A trava abaixa. Seu fim estava próximo. | 02

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http://cronicas-imaginarias.blogspot.com Crônicas Imaginárias | 2010 | Creative Commons | Direitos Reservados Solavanco. O brinquedo começa a mover-se, crianças nos carros de trás e nos da frente gritam eufóricas. Mas ele não. Ele sabia o que havia lá dentro. Abre-se a porta do castelo maldito. Os carros engatados avançam sem piedade, adentrando as trevas da mais popular atração do parque de diversões. Por alguns segundos, na escuridão, tudo o que pôde ouvir era os gritos das outras crianças que provavelmente já se encontraram com o verdadeiro horror daquele lugar cortado por trilhos velhos. Outro solavanco – o carro faz uma repentina curva de noventa graus e, onde segundos antes ele acreditava haver uma parede intransponível, um novo túnel. De repente, a escuridão começa a alaranjar-se, e já não se ouve mais outras crianças. Era muito provável que o outro garoto do carrinho também já não estivesse ao seu lado, mas o pavor era tamanho que não lhe permitia prestar atenção em quaisquer coisas que não fossem os horrores que, com certeza, o aguardavam ansiosamente. | 03

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http://cronicas-imaginarias.blogspot.com Crônicas Imaginárias | 2010 | Creative Commons | Direitos Reservados Solavanco. O brinquedo começa a mover-se, crianças nos carros de trás e nos da frente gritam eufóricas. Mas ele não. Ele sabia o que havia lá dentro. Abre-se a porta do castelo maldito. Os carros engatados avançam sem piedade, adentrando as trevas da mais popular atração do parque de diversões. Por alguns segundos, na escuridão, tudo o que pôde ouvir era os gritos das outras crianças que provavelmente já se encontraram com o verdadeiro horror daquele lugar cortado por trilhos velhos. Outro solavanco – o carro faz uma repentina curva de noventa graus e, onde segundos antes ele acreditava haver uma parede intransponível, um novo túnel. De repente, a escuridão começa a alaranjar-se, e já não se ouve mais outras crianças. Era muito provável que o outro garoto do carrinho também já não estivesse ao seu lado, mas o pavor era tamanho que não lhe permitia prestar atenção em quaisquer coisas que não fossem os horrores que, com certeza, o aguardavam ansiosamente. | 04

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http://cronicas-imaginarias.blogspot.com Crônicas Imaginárias | 2010 | Creative Commons | Direitos Reservados O calor aumentava á medida que o carrinho avançava. As luzes alaranjadas ganharam a fantasmagórica forma de labaredas, e as chamas começaram a envolver o carrinho que corria freneticamente direto em direção ao que lhe parecia ser o próprio inferno. De dentro das chamas, ele não viu chifres nem tridentes, mas sim outra espécie de demônios - demônios estes que também costumavam assombrar-lhe do lado de fora do brinquedo. Ouviu então gritos quando uma enorme mão saída do meio do fogo vinha com a intenção de bater-lhe na face. Nela, um cinto de couro, conhecido, de cheiro familiar. O cinto de seu pai. O cinto que tanto horror lhe causara. Ouviu mais gritos, mas não eram de outra criança, mas sim dele mesmo, vindos de algum lugar distante enquanto sofria seus maus tratos costumeiros, nas noites em que a bebida em casa era farta e a bondade, parca. | 05

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http://cronicas-imaginarias.blogspot.com Crônicas Imaginárias | 2010 | Creative Commons | Direitos Reservados Solavanco. Guinada. O carrinho com cara de monstro desce para um abismo sem fim, como o buraco em que caiu Alice, mas sem nada para amortecer a queda que parecia agora levar-lhe ao fim do mundo. Este novo lugar era frio, e haviam gigantescos viadutos que passavam por cima de sua cabeça. Isso foi tudo o que conseguiu notar antes da chuva que passou a cair torrencialmente. Notou que a chuva não lhe molhava, mas percebeu que molhava àqueles que estavam do lado de fora do carro. Eram aqueles sobre quem sua mãe chamara-lhe sempre a atenção: “Estude, ou vai acabar como eles. Favelados, sem teto. Dê graças a Deus pela família que você tem, e por não morar debaixo da ponte, e por comer do bom e do melhor, seu pequeno ingrato!”. Aquelas palavras sempre o aterrorizaram, mas nada era tão terrível quanto passear de carro e ver, do lado de fora do vidro embaçado, crianças de sua idade, doentes,maltrapilhas, agarrando-se a pedaços de papelão para não sucumbirem sob o aguaceiro. | 06

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http://cronicas-imaginarias.blogspot.com Crônicas Imaginárias | 2010 | Creative Commons | Direitos Reservados Solavanco. O tormento parecia ter terminado quando o ambiente todo clareou. Não havia naquele trecho nenhum monstro ou mesmo maldades. Surgiram do chão muitas árvores e grama, e de cima vieram nuvens, pássaros e um nublado céu azul. O garoto pôde, então, notar muitas pessoas á frente, todas vestidas de preto. O carro com cara de carranca agora diminuía a velocidade á medida que se aproximava do cortejo fúnebre. Estava dentro de um cemitério. Diante de pessoas que perderam alguém importante. Então o carrinho pára por alguns instantes, apenas para poder dar passagem ao cortejo que, notou o garoto, levava o corpo inerte dele mesmo na pavorosa caixa de madeira. E já não era um garoto, mas um senhor, que parecia ter vivido quase cem anos. Então percebeu que o que de fato lhe aterrorizava não eram monstros com chifres nem fantasmas de lençóis. Corvos passam e enegrecem o céu nublado. E então, o silêncio. | 07

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http://cronicas-imaginarias.blogspot.com Crônicas Imaginárias | 2010 | Creative Commons | Direitos Reservados Solavanco, curva de noventa graus. A subida á uma velocidade assustadora o leva a ouvir novamente gritinhos fingidos e muitas risadas de algumas das crianças dos outros carrinhos. A grande porta de madeira se abre, e o carrinho pára. As outras crianças descem contentes e eufóricas, mas o garoto parece muito distante. Abatido. A mãe vem para ajudá-lo a sair do brinquedo. Olha-o com carinho. “Tudo bem, filho?” “Tudo.” Ela sabia que era verdade e não tinha com que se preocupar, pois, afinal de contas, aquilo era só um brinquedo, e tudo ali era de mentirinha mesmo. | 08

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http://cronicas-imaginarias.blogspot.com Crônicas Imaginárias | 2010 | Creative Commons | Direitos Reservados “Trem-Fantasma” Texto original e Ilustrações por Marcio Batista 2010 | Licença Creative Commons | Direitos Reservados

Summary: A verdade pode se revelar em locais muito estranhos...

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