debil

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CESÁRIO VERDE Análise do poema “A Débil”

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“A Débil” Representa um tipo feminino que é o oposto complementar das esplêndidas, frígidas, fulgurantes e desdenhosas aristocratas emblemáticas do síndroma erótico de humilhação. Renoir, The Ingenue

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“A Débil” É frágil, simples, inocente, natural e bondosa. Está na cidade, mas não lhe pertence, passa por ela como uma personificação das qualidades que lhe são diametralmente opostas. Renoir, Portrait de Nini Lopez

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“A Débil” Neste poema, o amor é uma projecção num tempo condicional, um projecto para o futuro, o desejo de uma vida diferente radicado na observação presente da cidade corrupta. O narrador parece ter já sucumbido completamente à influência corruptora da cidade.

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“A Débil” Quando ela surge, está sentado num «café devasso», bebendo absinto, como qualquer decadentista bem integrado na vida da cidade. Fada Verde

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“A Débil” A visão da inocente «débil» faz com que reconheça a cedência moral à moderna «Babel» em que tinha caído. A mera presença dela recorda-lhe até que ponto se esquecera de si mesmo: Ela é como um mensageiro do «outro mundo» de valores opostos aos valores corruptos da cidade, uma passante.

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“A Débil” Eu que sou feio, sólido, leal, A ti, que és bela, frágil, assustada, Quero estimar-te, sempre, recatada Numa existência honesta, de cristal. Ele é feio; ela é bela. Ele é sólido; ela é frágil. Ele é leal; ela é assustada.

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“A Débil” A surpreendente justaposição de «leal» com «assustada» obriga a que a palavra «sólido» seja entendida simultaneamente no seu sentido literal e figurativo. É a «solidez» moral do narrador que permite que ele sinta «lealdade» pela frágil beleza da «débil».

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“A Débil” A «débil» representa valores opostos aos da cidade, o que nos é confirmado pelas correspondências simétricas entre as associações que ela evoca e o contrastante conjunto de associações evocado pelo tipo de mulher citadina. Enquanto a típica mulher depredatória anda sozinha, a débil anda acompanhada pela mãe:

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“A Débil” E ao claro sol, guardava-te, no entanto, A tua boa mãe, que te ama tanto, Que não te morrerá sem te casares! Renoir, The Umbrella

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“A Débil” A mulher citadina evoca o frio e o artifício: a «lucidez das jóias», a «majestade austera dos invernos», «gestos de neve e de metal», a «altivez magnética das cortes depravadas» A débil é associada com o calor, o sol, a alegria, a manhã: “O teu corpo que pulsa, alegre e brando, / Na frescura dos linhos matinais” (estrofe 4);

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“A Débil” É “frágil, assustada”; Caminha naturalmente – “Tu, muito natural, / Seguias a pensar no teu bordado” (estrofe 7) e não “com real solenidade” ou “como um astro que declina”; Usa vestidos “simples, sem enfeites” (estrofe 5), é discreta, “com elegância e sem ostentação” (estrofe 10), e nunca poderia impor «toilettes complicadas» ou «ducalmente esplêndida»;

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“A Débil” Inspira no poeta o desejo de protegê-la e de estimá-la, não o desejo perverso de se prostrar a seus pés; Com ela, é possível imaginar «uma família, um ninho de sossego», numa tranquilidade fértil e vital que é a antítese da paz do sepulcro associada com a «senhora inglesa» de “Frígida”.

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“A Débil” Na cidade, a débil é «uma pombinha tímida e quieta / Num bando ameaçador de corvos pretos». É a presa, não o predador.

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“A Débil” Ia passando, a quatro, o patriarca. Triste eu saí. Doía-me a cabeça. Uma turba ruidosa, negra, espessa, Voltava das exéquias de um monarca.

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“A Débil” Sorriam, nos seus trens, os titulares. Com elegância e sem ostentação, Atravessavas branca, esbelta e fina, Uma chusma de padres de batina, E de altos funcionários da nação.

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“A Débil” O patriarca, os titulares, os padres, os altos funcionários e a multidão anónima tornam-se, independentemente das suas posições sociais, numa indiscriminada «turba ruidosa, negra, espessa», o «povo turbulento» cujo valor funcional na narrativa do poema é o de acentuar a vulnerabilidade da débil na cidade ameaçadora (estrofe 11).

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“A Débil” Essa vulnerabilidade é dramaticamente acentuada pela representação da população enlutada da cidade como «um bando ameaçador de corvos pretos»: «Mas se a atropela o povo turbulento! Se fosse por acaso, ali pisada» De repente, paraste embaraçada Ao pé dum numeroso ajuntamento. E eu, que urdia estes fáceis esbocetos, Julguei ver, com a vista de poeta, Uma pombinha tímida e quieta Num bando ameaçador de corvos pretos.

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“A Débil” A tímida passagem da Débil através do povo turbulento é um antídoto contra a emasculação provocada pela cidade. Causa nele o reacordar do sentido moral e do desejo de viver, traduzidos na decisão de servi-la, e aos valores que ela personifica, expressa na última estrofe do poema que é, estruturalmente, o exacto paralelo da primeira.

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“A Débil” O «eu» que era “feio, sólido, leal” reencontra-se, graças à visão da “pombinha tímida e quieta” cercada por um “bando ameaçador de corvos pretos”, num “eu, homem varonil” que, rejeitando o decadentismo da pose citadina em que procurara ocultar e, assim, proteger a sua verdadeira natureza, transcende também os “fáceis esbocetos” que tinha estado a escrever ao tomar uma decisão firme de acção viril:

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“A Débil” E foi, então, que eu, homem varonil, Quis dedicar-te a minha pobre vida, A ti, que és ténue, dócil, recolhida, Eu, que sou hábil, prático, viril.

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“A Débil” Concluindo Mulher de cidade sem lhe pertencer: vv.2, 3, 6, 15, 16, 19, 20, etc. O "narrador" cede à influência corruptora da cidade e liberta-se pela adesão fiel à mulher do poema: vv.10, 11, 12.

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“A Débil” Concluindo Patriarca, Titulares, etc., acentuam a vulnerabilidade na cidade ameaçadora: vv.21 a 24, 39 a 44, 48. Reencontro do homem feio, leal com o homem varonil, rejeitando o decadentismo das poses citadinas: 1.ª e última estrofes.

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“A Débil” Concluindo A Débil, qual frágil bonina de Setentrional, partilha da experiência do amor libertador: vv.33-36, 49-52.

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“A Débil” Aspectos formais versos decassílabos rima: emparelhada e interpolada (ABBA) ritmo: ternário

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“A Débil” Aspectos estilísticos Aliterações Adjectivação Frases declarativas Antítese: feio/belo vv.47/48, 51/52

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“A Débil” Aspectos estilísticos Valor do imperfeito do indicativo: indicação de que o fascínio que ela exerceu no sujeito poético é durável, perdura Metáforas: vv.7, 47 e 48 hipálage: v.5

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