Deslumbramentos

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CESÁRIO VERDE Análise do poema “Deslumbramentos”

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“Deslumbramentos” A mera contemplação da «Milady» é perigosa: Milady, é perigoso contemplá-la, Quando passa aromática e normal, Com seu tipo tão nobre e tão de sala, Com seus gestos de neve e de metal.

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“Deslumbramentos” A perigosa senhora perfumada, cujos “gestos de neve e de metal” são uma combinação de qualidades frigidamente desumanas, é reconhecivelmente excepcional, em tipo e classe, como um produto das convenções mundanas, “com seu tipo tão nobre e tão de sala”.

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“Deslumbramentos” No entanto, este ser artificial é descrito como “normal”. A Milady, produto típico da cidade, representa a norma que é a cidade. Sugere uma atitude crítica em relação à estrutura social numa época em que a ordem urbana e industrial estava a suplantar a ordem rural e em que o artificial começava a dominar o natural.

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“Deslumbramentos” A norma da sociedade humana estava a ser invertida e a cidade era o mundo às avessas.

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“Deslumbramentos” A mulher fatal estonteia e fascina o poeta que lhe segue os passos «sem que nisso a desgoste ou desenfade» e é por ela tratado com humilhante indiferença: Ah! Como me estonteia e me fascina… E é, na graça distinta do seu porte, Como a Moda supérflua e feminina, E tão alta e serena como a Morte!...

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“Deslumbramentos” A Moda, produto artificial da vida citadina, é assim relacionada com a Morte – ambas personalizadas pelas maiúsculas – através da associação de ambas com a fria indiferença da «grande dama fatal».

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“Deslumbramentos” Aqui o fascínio erótico não é a inebriante atracção de uma voragem paradoxalmente destrutiva e criadora, mas o hipnotismo de uma mera destruição despersonalizada, fria, metálica, completamente indiferente.

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“Deslumbramentos” O olhar da Milady é impessoalmente iluminado pelo inumano «jogo ardente» de um arcanjo e de um demónio. Tem o poder de afagar como o pêlo dum regalo e de ferir como um florete:

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“Deslumbramentos” O seu olhar possui, num jogo ardente, Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo; Como um florete, fere agudamente, E afaga como o pêlo dum regalo!

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“Deslumbramentos” Com grande importância para a caracterização do perverso erotismo citadino, temos o facto de a «grande dama fatal» ser britânica»: Eu ontem encontrei-a, quando vinha, Britânica, e fazendo-me assombrar; Grande dama fatal, sempre sozinha, E com firmeza e música no andar!

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“Deslumbramentos” A humilhação do narrador perante a Milady inglesa pode ser entendida como um paralelo individual dos sentimentos de inferioridade da burguesia portuguesa em relação às raças «civilizadas» do Norte.

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“Deslumbramentos” As implicações sociais da humilhação individual do narrador são claramente expressas nas últimas quatro estrofes do poema.

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“Deslumbramentos” Pois bem. Conserve o gelo por esposo, E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos, O modo diplomático e orgulhoso Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

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“Deslumbramentos” A alusão a Ana de Áustria acentua o vínculo entre a degradação sexual e a sujeição social. É esse vínculo que está na base do tom abertamente ameaçador, em termos sociais, com que o poema termina:

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“Deslumbramentos” Mas cuidado, Milady, não se afoite, / Que hão de acabar os bárbaros reais; / E os povos humilhados, pela noite, / Para a vingança aguçam os punhais. E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas, / Sob o cetim do Azul e as andorinhas, / Eu hei de ver errar, alucinadas, / E arrastando farrapos – as rainhas!

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“Deslumbramentos” O erotismo citadino e, portanto, um erotismo de humilhação que reduz o amante à condição de servo ou presa fascinada, criando uma relação sado-masoquista entre a mulher, que personifica o artifício da cidade, e a sua complacente vítima. A própria cidade é um significante do triunfo da vida urbana e industrial sobre a ordem social rural.

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“Deslumbramentos” Nas últimas duas estrofes, a relação explícita entre a humilhação sexual do narrador e a humilhação social do povo sugere que a perversidade da situação psicológica do narrador pode ser entendida como um exemplo de uma situação social perversa, traduzida no domínio do povo por uma oligarquia privilegiada.

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“Deslumbramentos” É significativo que o narrador aceite a humilhação sexual e social a que está sujeito, mas quando a situação é transposta para o plano colectivo a ideia de vingança, expressa em termos sociais, torna-se dominante.

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“Deslumbramentos” A vingança contra a ordem social personificada pelas «miladies» está a ser secretamente preparada, «pela noite», pelos «povos humilhados» que «aguçam os punhais» na expectativa do dia primaveril em que «sob o cetim do Azul e as andorinhas», os «bárbaros reais» serão destruídos. Nesse dia, as «toilettes complicadas» que a Milady impôs «com real solenidade» serão trocadas por «farrapos» e as rainhas hão de ser vistas a «errar» pelas estradas, «alucinadas».

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“Deslumbramentos” A degradação social do povo comum humilhado é explicitamente associada ao degradante erotismo da cidade. O rebaixamento sexual individual e o rebaixamento social colectivo são exemplos do mesmo sistema opressivo.

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“Deslumbramentos” Desta maneira, o significado de «cidade» é alargado para abranger a divisão social entre os povos humilhados e a oligarquia humilhadora simbolizada pela artificial «flor do Luxo».

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“Deslumbramentos” Fatal, de humilhante indiferença, sofisticada, moderna, racional, distante, fútil, fria, orgulhosa e sedutora; Mulher da cidade transposição do plano individual para o colectivo: vingança contra a ordem social personificada pelas “miladies” – denúncia social redução do amante à condição de servo;

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“Deslumbramentos” Expressividade da linguagem Apóstrofes (vs. 1, 13, 25, 37…) Comparações (vs. 9, 15, 23, 32) Metáforas (vs. 15 e 16, 22, 37, 38)

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“Deslumbramentos” Expressividade da linguagem Antíteses (vs. 11 e 12, 22, 23, 24) Ironia (vs. 26 a 28)

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“Deslumbramentos” Estrutura formal Versos decassílabos Rima cruzada Ritmo binário

Tags: deslumbramentos cesario verde

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