Marília de Dirceu - Arcadismo brasileiro

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA – RS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS DOUTORADO EM LETRAS BIOGRAFISMO E FICÇÃO EM MARÍLIA DE DIRCEU TEMÍSTOCLES ZAMPROGNA PORTO ALEGRE, JUNHO DE 2011

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O Neoclassicismo ou Arcadismo

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CARACTERÍSTICAS DO NEOCLASSICISMO (Europa) - XVIII Século das luzes; Iluminismo francês; Libertação de formas de tirania; Progresso do pensamento humano; Avanço da ciência; Culto do otimismo; Retorno ao equilíbrio clássico;

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CARACTERÍSTICAS DO ARCADISMO (BRASIL) Estado: Minas Gerais (Vila Rica – Ouro Preto); Economia: ouro (extração de minérios); Brasil: país colônia (dominação portuguesa); Esgotamento do ouro; Portugal: cobrança excessiva de impostos;

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Reuniões populares para conspirar; Influências do Iluminismo francês (Criação de uma República); Burguesia letrada: juristas formados em Coimbra, padres, comerciantes, militares;

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Ideal de simplicidade; Tranquilidade, de suavidade; Temas pastoris e bucólicos; Vida amena; Fuga da cidade; Aproveite o dia (Carpe Diem).

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Tomás Antônio Gonzaga Nascido em Portugal; Viveu na Bahia dos 8 aos 19 anos; Retorna a Portugal (Coimbra) para cursar Direito; Posteriormente, retorna ao Brasil; Cargo de ouvidor em Vila Rica; Vida econômico-social estável; Aos 40 anos, apaixona-se por uma moça 25 anos mais nova: Maria Dorotéia Joaquina de Seixas;

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Atritos com corruptas autoridades locais; Circulação das Cartas Chilenas (manuscritas); Produções literárias com uso de pseudônimos com vistas na proteção da imagem identitária do indivíduo; Prisão (RJ) e exílio em na África (pelo período de 10 anos). Aspectos da vida pessoal do poeta condizentes com a produção literária de nome Marília de Dirceu.

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Composição da obra literária supramencionada: PARTE 1: primeira edição em 19792. Relata o estado da paixão, o estar enamorado e os planos de uma vida em dupla duradoura; PARTE 2: primeira edição em 1799. Mostra um homem cativo, sofrido e indignado perante a injustiça que fez separar-se de seu grande amor; PARTE 3: primeira edição em 1812.É uma reunião de textos supostamente escritos antes do seu envolvimento amoroso; seriam representantes da juventude do poeta.

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Pastores e rebanhos Quem são “Marília” e “Dirceu”? Quem são estes personagens? Quem são estes pastores que habitam os prados e guiam seus rebanhos? Arcadismo: racionalismo e harmonia do meio campestre; Concepção de racionalismo: manifestação de uma postura menos exagerada (em análise comparativa com o Barroco),mais comedida;

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Poeta: preocupado em proteger e em preservar a sua imagem (muitos deles, como Tomás Antônio Gonzaga, eram homens públicos); Utilização de pseudônimos (nomes fictícios) Espaço campestre: sentença de que a harmonia está no campo (homens do Arcadismo brasileiro moravam em cidades, possuíam contato com a cultura letrada, circulavam largamente pelos espaços urbanos).

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Marília de Dirceu (Tomás Antônio Gonzaga) PARTE I LIRA VII Vou retratar a Marília, A Marília, meus amores; Porém como? Se eu não vejo Quem me empreste as finas cores: Dar-mas a terra não pode; Não, que a sua cor mimosa Vence o lírio, vence a rosa, O jasmim, e as outras flores.

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Ah! Socorre, Amor, socorre Ao mais grato empenho meu! Voa sobre os Astros, voa, Traze-me as tintas do Céu.

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Mas não se esmoreça logo; Busquemos um pouco mais; Nos mares talvez se encontrem Cores, que sejam iguais. Porém não, que em paralelo Da minha Ninfa adorada Pérolas não valem nada, E nada valem corais. Ah! Socorre, Amor, socorre Ao mais grato empenho meu! Voa sobre os Astros, voa, Traze-me as tintas do Céu.

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Só no Céu achar-se podem Tais belezas, como aquelas, Que Marília tem nos olhos, E que tem nas faces belas. Mas às faces graciosas, Aos negros olhos, que matam, Não imitam, não retratam Nem Auroras, nem Estrelas. Ah! Socorre, Amor, socorre Ao mais grato empenho meu! Voa sobre os Astros, voa, Traze-me as tintas do Céu.

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Entremos na mesma Esfera, Venha Palas, venha Juno, Venha a Deusa de Citera, Porém não, que se Marília No certame antigo entrasse, Bem que a Páris não peitasse, A todas as três vencera.

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Vai-te, Amor, em vão socorres Ao mais grato empenho meu: Para formar-lhe o retrato Não bastam tintas do Céu

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PARTE I Lira XIV   Minha bela Marília, tudo passa; A sorte deste mundo é mal segura; Se vem depois dos males a ventura, Vem depois dos prazeres a desgraça. Estão os mesmos Deuses Sujeitos ao poder do ímpio Fado: Apolo já fugiu do Céu brilhante, Já foi Pastor de gado.

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Ornemos nossas testas com as flores. E façamos de feno um brando leito, Prendamo-nos, Marília, em laço estreito, Gozemos do prazer de sãos Amores. Sobre as nossas cabeças, Sem que o possam deter, o tempo corre; E para nós o tempo, que se passa, Também, Marília, morre.

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Com os anos, Marília, o gosto falta, E se entorpece o corpo já cansado; triste o velho cordeiro está deitado, e o leve filho sempre alegre salta. A mesma formosura É dote, que só goza a mocidade: Rugam-se as faces, o cabelo alveja, Mal chega a longa idade.

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Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias; E pode enfim mudar-se a nossa estrela. Ah! Não, minha Marília, Aproveite-se o tempo, antes que faça O estrago de roubar ao corpo as forças E ao semblante a graça.

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PARTE II Lira III Sucede, Marília bela, À medonha noite o dia; A estação chuvosa e fria À quente seca estação. Muda-se a sorte dos tempos; Só a minha sorte não?

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Os troncos nas Primaveras Brotam em flores viçosos, Nos Invernos escabrosos Largam as folhas no chão. Muda-se a sorte dos troncos; Só a minha sorte não?

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Aos brutos, Marília, cortam Armadas redes os passos, Rompem depois os seus laços, Fogem da dura prisão. Muda-se a sorte dos brutos; Só a minha sorte não?

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Nenhum dos homens conserva Alegre sempre o seu rosto; Depois das penas vem gosto, Depois de gosto aflição. Muda-se a sorte dos homens; Só a minha sorte não?

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Aos altos Deuses moveram Soberbos Gigantes guerra; No mais tempos o Céu, e a Terra Lhes tributa adoração. Muda-se a sorte dos Deuses; Só a minha sorte não?

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Há de, Marília, mudar-se Do destino a inclemência; Tenho por mim a inocência, Tenho por mim a razão. Muda-se a sorte de tudo; Só a minha sorte não?

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O tempo, ó Bela, que gasta Os troncos, pedras, e o cobre, O véu rompe, com que encobre À verdade a vil traição. Muda-se a sorte de tudo; Só a minha sorte não?

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Qual eu sou, verá o mundo; Mais me dará do que eu tinha, Tornarei a ver-te minha; Que feliz consolação! Não há de tudo mudar-se; Só a minha sorte não.

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PARTE II Lira XIX Nesta triste masmorra, De um semivivo corpo sepultura, Inda, Marília, adoro A tua formosura. Amor na minha idéia te retrata; Busca extremoso, que eu assim resista À dor imensa, que me cerca, e mata.

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Quando em eu mal pondero, Então mais vivamente te diviso: Vejo o teu rosto, e escuto A tua voz, e riso. Movo ligeiro para o vulto os passos; Eu beijo a tíbia luz em vez de face; E aperto sobre o peito em vão os braços.

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Conheço a ilusão minha; A violência da mágoa não suporto; Foge-me a vista e caio, Não sei se vivo ou morto. Enternece-se Amor de estrago tanto; Reclina-me no peito, e com mão terna Me limpa os olhos salgado pranto.

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Depois que represento Por lago espaço a imagem de um defunto, Movo os membros, suspiro, E onde estou pergunto. Conheço então que amor me tem consigo; Ergo a cabeça, que inda mal sustento, E com doente voz assim lhe digo:

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"Se queres ser piedoso, "Procura o sítio em que Marília mora, "Pinta-lhe o meu estrago, "E vê, Amor, se chora. "Se lágrimas verter, se a dor a arrasta, "Uma delas me traze sobre as penas, "E para alívio meu só isto basta."

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