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MEMÓRIAS de meu querido avô José Randolfo Lorena 04-02-1876 – 08-08-1961 ENTER Parte 2
MEMÓRIAS DE JOSÉ RANDOLFO LORENA Conforme texto original manuscrito pelo vô Lorena em 1951. Acervo do Museu da Família Lorena
Lutando sem desfalecimento, consegui ler todas as obras de Júlio Verne (muito instrutivas), Castilho Branco (muito sentimentais), Escrich (também suaves), Montpen e mais alguns autores. Fui sócio do Club União, presidido por Cunha Barbosa, de Cachoeira, enquanto houve romance em português para ler. Compreendendo que este gênero de leitura não aproveitava como desejava, passei a dedicar-me à História, Geografia, Botânica, e para estudo mais atraente, adquirindo assim, conhecimentos que longe estava de perceber. Com a ameaça da Minas e Rio, aliás com razão, perdi o gosto pela estrada, escrevi a meu tio Marciano, Agente de Bangu e transportei-me para esse lugar onde requeri para praticante de telégrafo na Central, uma vez aceito, em oito dias fui a exame, sendo aprovado, pois, lia bem de ouvido e bem transmitia. Recebi ordem para Santíssimo, como auxiliar e substituindo terceira classe. Passados dois meses e ansioso por trabalhar em Cachoeira, pedi ao chefe o Ramal São Paulo, fui removido para Sabaúna e passados mais dois meses, pedi Cachoeira, conseguindo meu desejo. Mas em pouco tempo fui removido para Lorena onde trabalhei alguns meses e indo certo dia substituir em Canas, comecei a namorar a filha do Agente, tomei liberdade com a família e fui ficando até que fiquei definitivamente nessa estação. Quando estava em Lorena, contando já com 18 anos entrei para a Maçonaria, proposto por Marciano Guarani que era músico e amigo de meu pai. A Loja Maçônica tinha o nome de Cosmopolita II. Fui um dos fundadores da Loja “Bom Jesus”, na Margem Esquerda desta localidade de Cachoeira, na ocasião em que se acreditava nos homens; com dedicação e estudos consegui percorrer a escala dos graus e posições, chegando a Veneratura de Loja, cargo que ocupei durante 15 anos. (fig.6)
Fig.6 – José Randolfo Lorena, o Venerável Mestre, fundador da Loja Maçônica Bom Jesus em Cachoeira Paulista.
Fui elevado aos graus 17, 18 e 30 sem pagar emolumentos. Por serviços prestados, recebi o título de membro da Assembléia Estadual (honorário). Abatendo colunas a Loja “Bom Jesus”, filiei-me mais tarde à Loja Cruzeiro Central, onde servi de orador durante três anos e em seguida fui considerado seu membro honorário. Trabalhei em Canas durante dois anos, depois pedi remoção para Cachoeira, estação de grande movimento da ocasião, pois, tinha bitola estreita da antiga São Paulo e Rio e do outro lado, bitola larga. (fig.7) Trabalhavam cem trabalhadores, oito manobreiros, quatro compositores, quatro trabalhadores de casaca; para auxiliar, uma turma de guarda-freios, oito telegrafistas, um ajudante, quatro conferentes, um fiel, um agente e dois rondantes. O Agente nessa época era A.da Cunha Barbosa, que administrava como um ditador; Fiel, o ajudante, e o Encarregado do Telégrafo, como bajuladores do Agente, podiam tomar café e tinham regalias; os demais empregados eram tratados com rispidez. No ano de 1896, casei-me, vindo desse consórcio a 1ª filha, à qual dei o nome de “Carmen”, nascida a 25 de fevereiro de 1898. Um fato que me veio à lembrança; na ocasião da revolta contra Floriano, não circulavam trens durante a noite, o agente da estação que morava no torreão do meio, deu ordens terminantes para os telegrafistas não dormirem durante a noite; havia um lugar na escada que não tinha forro, de onde se podia ver o escritório do telégrafo; o Agente durante a noite, muito sutilmente vinha ver se o empregado dormia, para dar telegrama ao Diretor comunicando o fato. Eu, que não tendo serviço desejava dormir, punha um romance aberto sobre o aparelho, fazia uma argola de barbante passava nos braços para não escorregarem, apoiava as mãos sob o queixo, em frente ao livro e dormia à vontade.
Fig.7 – A inauguração da Estação de Cachoeira e a primeira viagem de trem entre Rio de Janeiro e São Paulo, em 1877. Óleo sobre tela de Nelson Lorena.
A inauguração da Estação de Cachoeira Paulista Anexo 1 A Estrada de Ferro Dom Pedro II pertencia ao governo imperial e chegou até Cachoeira Paulista em 20/07/1875, para servir ao trecho navegável do Rio Paraíba. Entre 1876 e 1877, os passageiros vindos de São Paulo, desembarcavam em Taubaté, terminal da Estrada de Ferro do Norte construída por fazendeiros do Vale do Paraíba, seguindo por diligência até Cachoeira. Com trilhos de bitola métrica, esta chegou até Cachoeira em 12/05/1877, mas a inauguração oficial da ligação ferroviária só aconteceu quase dois meses depois, ocasião em que o atual prédio da estação foi entregue. No domingo de 08/7/1877, dez mil pessoas receberam no Brás, em São Paulo, os 500 passageiros da viagem inaugural Rio-São Paulo, em dois trens e quinze carros, com o Conde D'Eu, representando o Imperador e o Conselheiro Homem de Mello, de Pindamonhangaba. Partiram do Rio de Janeiro às 06:15 da manhã, com discursos, hinos e rojões, festas que se repetiam nas estações do percurso, embora o comboio não tenha parado em nenhuma delas; parou apenas em Cachoeira, onde foi feita a baldeação devido à diferença das bitolas. Com o fim da monarquia e a incorporação da EFN pela EFCB, em 1890, as bitolas foram unificadas e a baldeação em Cachoeira acabou. No final da década de 1940 e início da de 1950, a cidade e a estação se chamaram Valparaíba mas, finalmente, tomaram o nome de Cachoeira Paulista. É a segunda estação, em extensão, em toda a rede ferroviária, perdendo apenas para a Estação D.Pedro II, no Rio de Janeiro. Fonte:www.estacoesferroviarias.com.br (RALPH MENNUCCI GIESBRECHT)
Quando o Agente vinha ver, às caladas da noite, achava-me lendo e comentava entre os outros empregados, que eu não dormia, mas que se admirava de eu ler tanto romance e não ter sono!!! Eu era o maior empregado para o pernoite!! E assim, de boa reputação para cumprir suas ordens! Com o tempo, observando as dores do mundo, mais refletira e, não achando razão para tanta desigualdade, tornei-me materialista e anticlerical, amando de forma extraordinária a liberdade e a verdade, achando que só uma República democrática e liberal, seria a única forma capaz de satisfazer os sentimentos fraternos dos homens. As leituras de Ibanez, Recluz, Kropotkine, prendiam-me sobremaneira. Através da história, adquiri grande afeição pela Hespanha, França, grande admiração por Portugal, ninho de intelectuais, terra que há produzido filhos maiores que ela própria; a história deste pequeno jardim plantado à entrada da Europa é calente cheia de ternuras, encantos, saudades, carinhos, amor e admiração. Deliberei ir a Portugal depositar flores no túmulo do grande Marquês de Pombal e visitar lugares históricos, que me pareciam tê-los visto muitas vezes! Guardava todos os meses algum dinheiro para tal; não realizei esse ideal, porque a maioria dos jovens não persiste nos seus ideais, e eu deliberando, casei-me, o que fiz com 20 anos de idade e não realizei um ideal que só hoje vejo que deveria primeiro ter executado minha viagem, para depois realizar o que fui mais apressado a fazer. Depois de casado continuei a estudar, aperfeiçoando-me na filosofia maçônica, tornei-me amigo do ex-padre Guilherme Dias, intelectual português, autor de “Vozes da História”, “Ecos de Roma”, “Escolta Negra”, também de Evandro Dias, jornalista livre pensador, Benjamin Motta, autor de “Razão contra a fé”. Maçons de cultura, meus amigos, e que tinham prazer em esclarecer-me sempre que eu exprimia-lhes o desejo de aprender. Estudei um pouco de Inglês e embora não chegando ao fim por falta de explicador, ainda aprendi alguma coisa.
Freqüentei o culto Protestante, escrevi um hino que foi cantado várias vezes e remetido à Associação Cristã de Moços. Estudei a Bíblia, que não tomei a sério; dois anos entreguei-me ao estudo de hipnotismo e magnetismo, conheci os métodos, manuseei-os com atenção e dei muito valor às obras de Max Doris Laurense e Henrique Durvile. Fundei a primeira Sociedade de Foot Ball (1908) (fig.8), pedindo ao Diniz o terreno da Rua Ribeiro de Almeida, hoje cheio de casas. Desse terreno, arranjei passar para o Largo da Independência, onde hoje é jardim, passando mais tarde para o terreno em que hoje está o cinema. Desde a fundação viram que minha dedicação era grande, perceberam que eu era dinâmico e fizeram-me seu Presidente. Trabalhei com dedicação até que no fim de mais 2 anos, deixei a presidência, resignando ao cargo, em ofício que enviei, tendo como causa o fato de o tesoureiro pagar algumas contas sem minha autorização, inclusive uma conta na padaria de seu irmão, cuja conta não devia. Protestei em reunião da Diretoria, e como o vice-presidente e o secretário não tiveram coragem de protestar contra essa ilegalidade, não concordei e oficiei à diretoria, retirando-me. Formei a Sociedade Dramática (fig.9), que apresentou ao público, excelentes peças bem representadas, cuja sociedade teve a duração de quase quatro anos, terminando por que os atores foram se retirando aos poucos, em busca de emprego e o melhor ator que era Joaquim de Castro, excelente artista filho desta terra, ficou tuberculoso e morreu. Mais tarde aproximando-se a época do carnaval, um grupo de trabalhadores do Depósito da Estrada de Ferro resolveu formar uma sociedade carnavalesca e, no primeiro dia dos festejos, um grupo de pretos humildes, pedreiros que moravam no Alto da Igreja, desciam o morro cantando com os pandeiros e fantasiados, quando foram surpreendidos pelos “cabeças” da Sociedade do Depósito e que obrigaram os humildes pretos a voltarem, não consentindo que eles percorressem as ruas!
Fig.8 – Praça Prado Filho e campo do Cachoeira Futebol Clube, em 1912. Óleo sobre tela por Nelson Lorena
Fig.9 - Teatro de Cachoeira, inaugurado em 1883, um dos mais antigos do país, apresentou importantes compositores de óperas, entre eles, o grande Vila Lobos.
Achei esse fato indigno e, no dia seguinte, com a Banda de Música XV de Novembro, que eu dirigia, compareci com alguns amigos, fizemos os pretos passearem, deram baile e fundaram a Sociedade Carnavalesca “Prazer das Morenas” (fig.10) da qual fui eleito presidente, durante sete anos. Fiz cordões carnavalescos obedecendo a enredos os mais chics e caros, préstitos com carros, alegóricos, críticos, tudo bem disciplinado e obedecendo tudo a verdadeiro requinte de luxo, tendo sido qualificado por vários viajantes, como o melhor carnaval do Estado de São Paulo. Nos 3 dias de festejos, acorreram para esta cidade, grandes quantidades de automóveis, vindos de Piquete, Guará, Pinda, Lorena, Cruzeiro, Rezende e até de Barra. Trabalhei muito, comprei a casa onde era a sede com a obrigação de dar 2 contos todos os anos e com a condição de, um ano que deixasse de pagar no dia aprazado, o dono teria o direito de tomar conta da casa, perdendo a Sociedade tudo que tivesse. Só deixei a sociedade depois que a entreguei sem dívida e com a escritura, não devendo coisa alguma. Durante 3 anos e meio, mantive os bailes de domingueiras, das 9 as 12 da noite, para manter a freqüência das famílias, com os músicos: Nelson Lorena, Biloca, Rossete, Pedrico e Milton Lorena, que por solidariedade a mim, tocaram todo esse tempo gratuitamente. Hoje a Sociedade tem outro nome, um novo prédio em lugar do velho e mudaram o nome para Clube Literário, embora ali ninguém trate de literatura. Muitos sócios com as diretorias que sucederam, pela janela, são os que mandam, e os antigos que alicerçaram a Sociedade, como não são dotados de fortuna pecuniária, foram votados ao esquecimento. (fig.11/6) Durante minha gestão, nunca bebi, nunca joguei e nunca negociei com a Sociedade. Trabalhei bastante, dei o máximo que podia e saí com a consciência e as mãos limpas. Quando fiz todo esse trabalho, ainda se acreditava nos homens.
Fig.10 - Sedes da Sociedade Carnavalesca Prazer das Morenas. Retratos a óleo por Nelson Lorena.
Fig.11/1 - O Carnaval do Prazer das Morenas em Cachoeira. Jenny Lorena, filha do Maestro Lorena, com o estandarte da Sociedade.
Fig.11/2 - Jenny Lorena e o carro alegórico da Lira.
Fig.11/3 - O carro alegórico do pavão.
Fig.11/4 – Bloco carnavalesco com crianças e adolescentes sob o comando de Vicente Buono, em frente à Sede da Sociedade, no Carnaval de 1938.
Fig.11/5 - Nelson Lorena (1), José Randolfo Lorena (2) e integrantes da Sociedade Carnavalesca Prazer das Morenas, posando para fotografia em frente à Sede, no Carnaval de 1923. 1 2
Fig.11/6 - O Carnaval em Cachoeira na concepção de Nelson Lorena. Óleo sobre tela de 1975
MEMÓRIAS DE JOSÉ RANDOLFO LORENA Formatação e Pesquisa MILTON LORENA Abril/2009 miltonlorena@gmail.com http://oslorenas.blogspot.com
Músicas BOMBARDINO EM DESFILE – Banda Musical Novo Século – Stª Cruz do Capibaribe-PE FERROVIÁRIOS (Mário Zan/Ângelo Reale) – Bandinha de Mário Zan ABRE ALAS (Chiquinha Gonzaga/1899) – Jaime Brito-1939 Fim da Parte 2
Summary: Memórias de José Randolfo Lorena em apresentação nos blogs http://oslorenas.blogspot.com e http://museumaestrolorena.blogspot.com
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