Memórias da Minha Infância - Parte 1

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Wilson Lorena 1919 - 1994 “...de passagem pelo planeta Terra.”

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Estas memórias fazem parte dos manuscritos de Wilson Lorena, meu querido pai e melhor amigo. Permitem conhecer um pouco da sua infância privilegiada e feliz, e alguns dos primeiros fatos que o conduziram pelos caminhos da espiritualidade a uma vida dedicada em benefício do próximo. Se, pelo exercício do livre arbítrio, muitos conseguem fazer brilhar o próprio destino, alguns vêm ao mundo já com a graça de um destino brilhante; não para a exaltação de si mesmos, mas para viver como um farol, iluminando os caminhos. Milton Lorena Novembro de 2008

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“Por ocasião desta minha passagem pelo planeta Terra, deixo aqui registrado um relato verídico de tudo o que se passou comigo e que posso me lembrar, uma vez que, muita coisa já me vai fugindo da memória. Quero que meus filhos e netos saibam, quem fui, sou e poderei ser amanhã, quando já estiver no plano espiritual junto da minha companheira, Celina, sublime mulher, maravilhosa esposa e mãe, inesquecível!” Wilson Lorena MEMÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA Lembranças dos meus dez primeiros anos de vida. 1919 -1929 Parte 1

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18 DE ABRIL DE 1919, A HORA CHEGOU. Todos os que formariam a grande família Lorena, de José Randolfo e Antonia Eulina já tinham nascido, faltando apenas Eu e a Yvone para completar as dezenove vezes que a minha adorada mãe ficou grávida. No decorrer do mês de Abril do ano de 1919, chegava ao final a sua 18ª gestação e ela estava ansiosa para ver-se livre daquela enorme bola, que carregava há nove meses. Meu pai dizia que seria um homem, mas minha mãe desconfiava que seria mais uma mulher e, nessa expectativa, chegava o dia da visita da cegonha. A noite estava calma e, no plano espiritual, os mensageiros celestes já tudo haviam preparado. Minha mãe sentindo contrações cada vez mais frequentes, andava de um lado para outro e meu pai, nervoso, estava sentado na sala de jantar. A parteira já tinha tomado todas as providências e, estando tudo em ordem, minha mãe foi para o quarto deitar-se, pois, a hora chegou. Era a madrugada do dia 18 de Abril, minhas irmãs, quase todas, dormiam e, em meio ao silêncio, ouviam-se apenas os gemidos de minha mãe.

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E, dentro de poucos minutos, vinha a parteira anunciar, toda sorridente, o nascimento de um menino. Minha mãe chorava de alegria e meu pai, sentindo-se feliz, disse: “Este vai se chamar Wilson. Desta vez, acertei em cheio!” Depois de tudo consumado, a parteira tomou seu cafezinho e o dia já clareava quando foi para sua casa. Minhas irmãs e meus dois irmãos, Nelson com 17 anos e Milton que completava 4 anos no dia seguinte, e por pouco não nasci no dia do seu aniversário, acordaram todos, a alegria foi intensa e ninguém mais dormiu. Nos anos seguintes, sempre no dia 19 de abril, eram comemorados o meu nascimento e o aniversário do Milton, meu inesquecível irmão. Minha mãe permaneceu em seu quarto cuidando de mim, até passar a quarentena, submetendo-se a um repouso absoluto, pois, assim era o sistema antigamente; as mulheres gozavam mais saúde, eram mais felizes. Os dias foram passando e eu fui me desenvolvendo e ficando cada vez mais gordinho, também pudera, agarrado no peito da mãe o tempo todo!

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Como toda criança saudável, na época certa comecei a rolar pelo chão e a engatinhar, o que era motivo de muita alegria para meus pais e para toda a família. E, com os dias passando depressa, minha mãe, restabelecida, logo retomou frente aos afazeres da casa. O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO. Quando se aproximou o meu primeiro aniversário, meu pai reuniu a família toda na varanda de casa para tirar um retrato. Essa fotografia existe até hoje e deve estar com uma das irmãs mais velhas, isto é, mais idosas. Nela vocês podem ver a linda criança que eu era e como eu estava curioso para ver o passarinho sair da máquina fotográfica; o único jeito de eu ficar quieto. Meu irmão Nelson me pegou no colo e a foto, revelada, ficou ótima.

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Tudo correu bem durante esse ano da minha vida, nada me lembro para lhes contar, mas uma coisa posso garantir, minha mãe e minhas irmãs não venciam as trocas de fraldas molhadas, quase sempre lambuzadas de alguma coisa que cheirava mal. E, nessa labuta doméstica, chegou o dia 18 de Abril de 1920, quando eu completava meu primeiro aniversário, porém, a comemoração foi no dia seguinte, em que meu irmão, Milton, fazia cinco anos de idade. Minha mãe fez um bolo lindo, os parentes e amigos abrilhantaram a festa e eu, vestindo um macacãozinho azul, estava um amor, ficava de pé e já dava alguns passinhos, mas só consegui andar mesmo com 1 ano e 3 meses. Era uma graça quando eu me equilibrava para andar e caía; mas era também uma chateação, quando o coitadinho do “Louro”, apelido que minha irmã Áurea me colocou, se achava molhado e lambuzado. E assim fui crescendo no seio dessa família maravilhosa, ao som da música de meu pai, grande maestro, que tocava, além do bombardino, vários instrumentos de corda e do meu querido irmão, Nelson, então, já um grande trompetista.

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O SEGUNDO ANIVERSÁRIO. Passou-se o ano de 1920, sem novidades, sem doenças, com muita saúde. Meus cabelos cacheados cresceram depressa e, de tanto mamar, fiquei gordo como uma bola. Naquela época, as crianças até dois ou três anos usavam vestidos ou camisolinhas e dormiam abraçadas com suas mães, na mesma cama. Mas, já se falava nas festividades de 18 e 19 de Abril de 1921 quando, alguns meses depois, eu completaria dois anos de idade. Essas comemorações foram durante o dia e a casa ficou lotada de parentes e amigos nos dois dias de festa. Minha irmã Ínes, de saudosa memória, foi minha pajem, babá e segunda mãe, até os meus 23 anos, quando me casei. Antes do cair da tarde, ela, me deu um banho, me vestiu todo de branco e um retratista se preparou para fazer uma fotografia. O céu estava inteiro de azul celeste, o sol brilhava com sua luz fulgurante, a Serra da Mantiqueira estava maravilhosa com suas florestas verdes, a Igreja de Santo Antonio, no alto da colina, badalava seus sinos e os foguetes explodiam no espaço anunciando a próxima Semana Santa.

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Sob esse cenário maravilhoso, meus irmãos me puseram de pé numa cadeira preta de palhinha e minha irmã, Carmem, para me deixar mais bonito, colocou sobre a minha cabeça um pano rendado. Eu fiquei de pé na cadeira e fechei os olhos como se estivesse dormindo, pois, um raio de sol ofuscava a minha vista. Esse retrato, até hoje eu o tenho guardado comigo, e vocês, meus filhos, podem ver que belezinha de “Lalau” eu era e como era tratado com ternura e carinho pelos meus pais e irmãos. Passados alguns dias, os meus pais subscritaram os retratinhos, enviando-os aos parentes e amigos mais íntimos...um ano passa rápido! PRIMEIRA ARTE: CONFUSÃO NA CAMA DA MÃE DUDU. E tendo passado todo o ano de 1921 sem nada importante para descrever, chegava o dia 18 de Abril de 1922 e eu completava meus três anos de idade. No entanto, contarei a vocês, meus filhos, a minha primeira arte, quando eu tinha 3 anos e 5 meses.

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Até essa idade, eu dormia na cama de minha mãe, agarradinho com ela, enquanto meu pai dormia sozinho numa cama de solteiro, no mesmo quarto. A Ínes e a Anita já eram crescidas e dormiam em outro quarto, porém, todas as noites acordavam e corriam para a cama da mamãe, dormindo nos pés o resto da madrugada. Numa bela madrugada, enquanto todos dormiam, eu acordei com meus pés gelados. A Anita, que era a mais mijona, lascou aquela mijada na cama e eu tinha permanecido com os pés no molhado. E tendo acordado com muita vontade de esvaziar a bexiga, pensei em pegar o peniquinho, que era meu amigo e sempre me socorria nessas horas, mas não dava para eu descer da cama. Minha mãe, cansada de trabalhar roncava a sono solto e nos pés da cama, a Ínes e a Anita dormiam tranquilas. Eu fiquei de pé, esfreguei os olhos, agarrei o piruzão pelo papo e soltei aquela mijada gostosa, diretamente na cara da Ínes. Como ela só dormia de boca aberta, bebeu mijo sem querer!

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A gritaria foi enorme, minha mãe levou um tamanho susto que quase caiu da cama. Meu Pai, só de ceroulas, em pé no meio do quarto tentava parar o berreiro, sem conseguir. As minhas irmãs e inclusive o meu irmão Nelson, levantaram todos correndo, apavorados. Minha mãe colocou todo mundo para fora do quarto. Meu pai ajudou minha mãe virar o colchão, recompor a cama e, novamente, tudo se acalmou. Porém, ninguém mais dormiu, só o meu pai voltou pra cama, mas foi ler um jornal e, raciocinando um pouco, disse: “Essa é a primeira arte deste moleque! Não sei como ele conseguiu acertar, direitinho, a boca da Ínes!” Essa madrugada travessa foi assunto para muitos meses em nossa casa. Foi a minha primeira “arte” e assim, o tempo foi passando, fui crescendo, dando grande alegria aos meus pais, mas, ao mesmo tempo, preocupações pelas artes que eu fazia.

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Meus filhos, quero que vocês saibam que minha mãe era uma criatura maravilhosa, muito amorosa e carinhosa, vivia dentro de casa, cuidando da filharada e da cozinha. Meu pai trabalhava na Central do Brasil e, como telegrafista, ganhava pouco para sustentar essa enorme família. Mas, nessa época, já era um grande maestro. Ele era muito respeitado com as suas peças de harmonia e ficou conhecido por todo o Vale do Paraíba. Nasci e fui crescendo no seio dessa maravilhosa família de artistas, fazendo também as minhas artes. Em Novembro desse mesmo ano, em 1922 o sarampo me vitimou e fiquei preso no quarto, com febre. Mas, afinal, fiquei bom e iniciei o ano de 1923 completamente restabelecido. Eu brincava, corria de um lado para outro e chutava minha bola de pano que a minha mãe fazia de meias e trapos velhos, pois, o dinheiro que meu pai ganhava não dava para comprar bola de borracha.

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NASCIMENTO DA YVONE. Minha mãe, novamente pesadona, esperava a visita da cegonha para o mês de janeiro, e completava as dezenove vezes que ficou grávida. No dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, a cidade estava em festa, a Igreja de Santo Antonio badalava seus sinos e anunciava a procissão na qual meu pai ia tocar, pois, ele fazia parte da corporação. Nesse mesmo dia, não me recordo a hora exata, a festa foi em nossa casa. Minha mãe deu à luz uma criança do sexo feminino, muito linda, a qual recebeu o nome de Yvone. Eu fiquei um pouco triste e enciumado, pois, o carinho e o amor que todos me dedicavam tinha sido dividido, 50% com a Yvone. Mas em Abril desse mesmo ano, três meses depois do nascimento da Yvone, nos dias 18 e 19, eram festejados com pompa e muita alegria, o meu aniversário e o do meu irmão Milton.

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SEGUNDA ARTE: AS BANANAS NA DESPENSA. Agora já com 4 anos de idade, contarei a vocês, meus filhos, a minha 2ª arte. Foi assim: na casa em que nasci, vocês já sabem, na Rua São Sebastião, havia muitos arvoredos no quintal, inclusive bananeiras. Meu pai cortava os cachos, de vez, e guardava-os na despensa amarrados no telhado por um arame. Certo dia, fui sorrateiramente à Despensa, subi em cima de dois sacos de milho e, em seguida em cima da mesa, alcançando as bananas. Elas estavam bem maduras e fui comendo...e comendo...em silêncio. De repente, minha mãe que já estava cansada de me procurar, entrou desesperada na Despensa, o único lugar em que eu não tinha sido ainda procurado, pois, até na cacimba foram me procurar.

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Quando escutei o barulho na porta, enfiei a banana na boca ficando quase sem poder respirar, pulei depressa em cima do saco de milho, que virou de boca para baixo, derramando todo o milho no chão. Minha mãe gritou comigo, o cacho de banana ficou balançando e arrebentou o arame que o segurava no caibro roliço do telhado. E aquele enorme cacho, ao cair em cima de uma mesinha, achatou-a no chão. Meus filhos, fiquei de olhos arregalados, as bochechas estufadas, sem poder falar nada e, nesse dia, recebi as minhas duas primeiras chineladas. Assim terminava a minha 2ª arte aos 4 anos de idade. TERCEIRA ARTE: NO MESMO DIA, O TIGRE PEGA O PADEIRO. Passamos à 3ª arte que foi logo em seguida, isto é, no mesmo dia, à tarde. Eu estava brincando na varanda grande da casa e ao meu lado ressonava um cachorrão de nossa estimação, chamado Tigre, pois assim aparentava ser. Meu pai o adquiriu pequeno, mas agora estava um cão alto e forte, enorme e perigoso, porém obediente.

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Quando o vendedor de pão chegou e gritou, “padeiro... padeiro...”, eu estava deitado no chão da varanda, brincando com uns palitinhos de fósforos queimados, perto da cabeça do Tigre. O cachorro fingia que estava dormindo e imediatamente passou pela minha ideia uma arte. Falei baixinho na orelha do Tigre e o cachorro, obediente, não esperou falar a segunda vez, abriu os olhos, levantou as orelhas, deu um latido e disparou como uma flecha, que não deu tempo de nada. O padeiro firmou o chapéu na cabeça e quis correr, mas o Tigre saltou-lhe no peito atirando-o longe com cesta e tudo. Os pães saíram voando e o padeiro desceu as escadas feito um raio, com o cão atrás. Uma das minhas irmãs que estava na janela gritou e o cachorro obediente atendeu, mas continuou latindo de cima do barranco. E o interessante de tudo, que me deixou rindo sem parar, foi que o pobre padeiro largou sua cesta no chão toda amassada, os pães espalhados à distância e correu pela rua com a bunda de fora. O Tigre havia rasgado a sua calça toda e o coitado, apavorado, nem ligou importância.

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Depois de passado o caso, minha mãe veio a saber que fui eu o causador da tragédia e, como compensação recebi mais umas chineladas e, em seguida fiquei de pé no canto da sala uns trinta minutos de castigo. Terminava assim a minha 3ª arte. E com o passar do tempo, eu logo completava 5 anos de idade, ainda não estava na escola, mas, nessa época, os meus pais resolveram cortar os meus cabelos compridos e que eram cheios de cachos. Minha querida mãe chorou muito, porém, guardou uns cachos, não para amadurecer como fazia com os cachos de bananas, mas como recordação. Afora as artes que eu fazia, meus pais tinham verdadeira adoração por mim; minhas irmãs me cobriam de carinhos, meu irmão Nelson me ensinava jogar bola, isto é, futebol e junto com o meu irmão Milton, vivíamos alegres e felizes, sem pensar nas dificuldades da vida.

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Músicas: Ave Maria - Carpenters Petite Fleur/A Cerejeira/Cachito - Ivanildo “Sax de Ouro” Formatado por Milton Lorena Novembro/2008 Fim da Primeira Parte

Summary: Memórias de Wilson Lorena em apresentação nos blogs http://museumaestrolorena.blogspot.com e http://oslorenas.blogspot.com

Tags: infancia cachoeira paulista wilson lorena

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