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Teatro As Velhas Senhoras Peça em dois atos de MiguelAngel © FILOMENA: MÃE. (Nonagenária) MARIANA: FILHA DE FILOMENA JOSÉ: "NOIVO" DE MARIANA, 35 E 76 ANOS. figurante: COMPANHEIRO DE QUARTO DE JOSÉ: Personagens Do Blog de Miguel Angel Clique nos slides para mudar páginas

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Cenário: Dois quartos; o da direita pertence a FILOMENA; uma cama, criado-mudo. À esquerda, o de MARIANA, cama e guarda-roupa; no centro, ao fundo, a sala. Um antigo armário. Cadeiras, banquetas, mesa. Na porta ao fundo, “o resto da casa”. PRIMEIRO ATO Mãe e filha entram chegando da missa: Terço na mão, manto nos ombros; livro de missa. Ambas de saias longas, pretas. Filomena senta numa cadeira, põe tudo sobre a mesa; cotovelos apoiados nela, adormece imediatamente. Mariana vai até o móvel, tira dele vidro com pílulas; a jarra de água ao lado: enche copo. Guarda o vidro no bolso. Nota do autor: Não é exigido ou necessário a eventuais jovens atrizes, aparentar com artifícios de maquiagem a idade mencionada dos personagens. Esta pode ser sugerida também com vestuário, voz e postura corporal. Croqui sugerindo diagramação de objetos no cenário

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MARIANA − Mãe! Acorda. Aqui o remédio das nove. Vamos. Toma. (Ela finge acordar assustada, pega o copo, faz caretas enquanto bebe) O sermão do padre foi longo, não foi? (Pausa) Por hoje chega de jejum. Vou preparar o chá.   Ela sai. Imediatamente Filomena levanta com desenvoltura, vai até o móvel e tira pacote de bolachas escondido. Guarda algumas no bolso; esconde novamente o pacote. Come. TEMPO. Entra Mariana com bandeja pronta: chá, xícaras. Coloca tudo sobre o móvel. MARIANA − (Abrindo gavetas, procura.) Os biscoitos acabaram? Vou procurar. Volto já!. (Sai. Filomena resmunga enquanto disfarça o mastigar. Levanta e prontamente se serve de chá: bebe e come. Assim que termina vai para seu quarto, à direita. Tira do bolso envelope e, com algum esforço, o esconde sob o colchão. Deita suspirando. Entra Mariana na sala com embrulho nas mãos.) MARIANA − Mãe, já foi deitar? (Pausa) Não vai tomar seu chá? Ao colocar o embrulho sobre a mesa, percebe as migalhas. Senta. Come e toma seu chá em silêncio. TEMPO. Ao acabar, vai ao seu quarto. Tira a blusa. Abre a porta do guarda-roupa e a pendura. Senta na cama;       enquanto tira os sapatos, do guarda-roupa sai, cheirando a blusa, JOSÉ, vestido de branco igual a padeiro, aparenta uns 32 anos, seu rosto completamente branco de farinha; senta atrás dela; observando-a, espera reação. MARIANA (Sem olhar para ele; habituada) − Ai, José, José. Aquela velha ainda há de me enterrar. Será que se pode morrer de aborrecimento? Quem pode saber? Mas nos disseram que mães são sagradas. Era o que também dizia aos meus alunos. "Mãe, é como o altar da igreja aos domingos" E como pesam esses domingos, José! (Pausa. Ela pega a blusa das mãos dele e a coloca novamente dentro do móvel, se deita e segura a mão dele carinhosamente, ele a imita) Dormir um pouco. Descansar uma horinha. Vai ser dia longo. Tão longo, José. Se não fosse por tua companhia, sei não se despertaria.   Blecaute. TEMPO. Luz dia. Mariana entra vinda da rua, carrega sacola. Coloca-a sobre a mesa; senta para retomar o fôlego. Levanta e sai pela porta do fundo. Tempo. Filomena entra, vê a sacola, examina o conteúdo. De uma caixa de ovos, tira dois deles e rápida vai ao quarto de Mariana; debaixo do travesseiro esconde−os. Volta para a sala. Finge indiferença mexendo nas gavetas quando Mariana volta.

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 FILOMENA − A velha quer que eu acredite que se importa com minha saúde. MARIANA − É meu dever de filha. FILOMENA − E meu direito de mãe é te mandar pro inferno, ou pra cozinha. Escolhe. MARIANA − Isso não é escolha. É sentença. Vou trazer o chá. Levando a sacola, sai. Filomena, contente com o que tira de dentro da gaveta: um doce evidentemente escondido por ela mesma, guarda-o no bolso. De outra gaveta, retira as coisas de missa: terço, livro, manto. Tempo. Está pronta para sair, mas aguarda Mariana entrar, com xícara de chá. FILOMENA − Será que as galinhas botaram hoje? (Disfarça risada) MARIANA − O último bicho que andou por aqui, foi aquele gato que tu envenenaste. Toma. (Tira do bolso frasco e dele uma pílula. Junto com a xícara, dá para Filomena beber.) Vai passar no correio depois da missa? FILOMENA − Faz mais de 30 anos com essa mesma cantilena! (Imitando) "Vai passar no correio?" Vergonha de tu mesma ires lá, não é? (Pausa.) Se eu vou é pra visitar minhas velhas colegas, não por tua causa.  Pelo menos com elas se pode conversar decentemente. E esperando o quê ainda? Milagre nos envelopes? Alguma encomenda de véu e grinaldas? Velha louca! (Pausa. Pronta para sair. Como lembrando subitamente) Dá uma olhada se a galinha botou lá, no galinheiro! (Assinalando o quarto de Mariana. Tosse com risadinha e sai. Mariana adivinhando, vai ao seu quarto; assim que entra, do guarda-roupa sai José, fica quieto ao perceber a fúria dela. Observa-a procurar no guarda-roupa, debaixo da cama, até encontrar os ovos debaixo do travesseiro) MARIANA (Com os ovos na mão) − Não me importo mais com estas coisas. Acho que acostumei. (Pausa) Aquela velha está cada dia mais louca. Não sei, não. Mas às vezes me parece que tem ciúme de nós. (Pausa. Melancólica sorri) Parecia tudo tão certo! No começo o sol, depois a lua no céu daquela festa, e tu equilibrando pães mágicos. (Como aguardando a deixa, José tira do bolso dois pãezinhos espetados por garfos e imita passos de balé com eles, como Chaplin no filme "Em busca do ouro”. Mariana sorri.) Rindo de tuas palhaçadas, no final da quermesse já estávamos apaixonados. (Acaricia José que deita a seu lado. TEMPO. Do fundo, entra Filomena na sala. Livra-se do manto e do livro de missa. Vai até a porta do quarto de Mariana. Ouve com atenção).

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 MARIANA − Se tu morreste, José, quero deitar contigo esta vida seca que me resta. (Pausa) A morte virando esperança? (TOM) Ai, Mariana quanto pecado! (Acariciando-se) Mas dentro de meu ventre, ainda levo nosso filho inascido. Ele está lá, José. Aninhado com tua ausência. (Leva a mão dele até o regaço e o faz acariciá-lo. Grudada na porta, Filomena espia escondendo risadinha. Satisfeita vai para seu quarto. Tira garrafa de esconderijo e bebe. A esconde novamente. Pausa. Grita.) FILOMENA − Estou te chamando! (Rapidamente José entra no guarda-roupa. Ela esconde os pãezinhos no móvel. Suspira. Vai para o quarto da mãe.) FILOMENA − Olha aqui! O médico falou que preciso me cuidar mais, que não estou melhorando. (Imitando-o) "Na sua idade, precisa de mais cuidados". Ele sempre disse! "Na sua idade".Velho imbecil, velhice é doença? (Imitando-se) "Doença, doutor, é minha filha. Essa coitada que vive misturando fantasmas naqueles refogados temperados com sementes de tédio! (Para ela) Ou sementes de loucura, heim? Heim? MARIANA − A loucura pode ser um bom tempero para o tédio, mãe. Vou pegar teu remédio. (Vai até a sala. Filomena, lembrando subitamente, tira do bolso envelope e o esconde sob o colchão. Mariana entra de copo e remédio nas mãos.) MARIANA − Toma. (A mãe bebe, se engasga. Escarra ruidosamente no chão) Doente e velha demais para ficar aí, imaginando coisas... FILOMENA − Doente? Estou é sendo envenenada por uma velha louca. Imaginando? Pensa que me engana? MARIANA − Deita um pouco agora e para com essas besteiras. FILOMENA (Resmunga, preparando-se para deitar) − Besteira, besteira foi ter-me casado com aquele desgraçado. (Pausa.) Com a noite vinha o pavor de me deitar a seu lado, sempre me procurando com aquela "coisa" esfregando-a em mim. O único que fez foi ter ajudado a te parir, pra morrer logo em seguida. Como se ele tivesse abortado! Na sua sabedoria, o Senhor me deu a luz compensando-me com a morte dele. (Olhando Mariana dos pés à cabeça.) O meu tormento contigo foi outra "coisa.” MARIANA (Esfregando o chão.) − De volta ao velho castigo. FILOMENA − E porque não? As filhas servem para serem castigadas. (Aqui ela se transforma: forte e ereta, com desenvoltura anda ao redor de Mariana, ainda ajoelhada. À plateia:)

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FILOMENA – Viram como ela é prendada? Tão educada, prestativa e gentil. Parece até gente grande! MARIANA (Levanta o rosto sem emoção; mecanicamente.) − Professora... FILOMENA (Emendando as frases) − ...Como já devem ter adivinhado, dará uma excelente professora! Não é filhinha?... MARIANA − (Emendando as frases)...Ou então freira... FILOMENA − ...para não correr o risco de ser mãe de idiotas! Numa comunidade de santas religiosas! Reinaria nela como exemplo, não acham?... MARIANA − ...Cordeirinho... FILOMENA −− ...sem pecado! Incapaz de fazer mal a quem quer que seja... MARIANA − ...Sacrifícios... FILOMENA − ...pelos outros que ninguém é capaz de fazer. Prestimosa que só vendo... MARIANA − ...Sorte e felicidade... FILOMENA − ...Deus me deu ter filha assim, que não larga da mãe nem por um minuto. Até preparar chá, ela já sabe. MARIANA − ...O que seria dela... FILOMENA − ...se a mãe lhe faltasse? Só Deus sabe. Mas Ele haverá de cuidar desta santa se um dia me chamar a seu lado. Até lá, não existe sacrifício suficiente... MARIANA − ...Sensível e frágil... FILOMENA − ...como ela é, podem imaginá-la andando pelo mundo, sem a ajuda e a força de sua mãe? Só de pensar dá um aperto no coração, não dá?... MARIANA − ...Homem... FILOMENA (Sua voz mudando com o "correr dos anos") − ...Homem nenhum merece flor assim. Essa vida cheia de demônios em cada esquina. Mas a mãe não há de lhe faltar, para protegê-la dos pecados dos outros... MARIANA − ...Professora... FILOMENA (O tempo curva suas costas) − ...Agora que minha filha é professora, precisa ter cuidado nesse r e vir da escola. Vou pedir ao padre mudar esse horário tão tarde. Nunca se sabe o que pode acontecer, não é, querida?... MARIANA − ...Festa?

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MARIANA − ...Festa? FILOMENA − ...Só se for na quermesse da igreja. Não posso te imaginar andando com essa corja esfregando-se em impudências que me dão arrepios. Não a minha filha, por favor! Tu tens mãe! Agora, os outros...Bem... MARIANA (Ainda de joelhos) − ...os outros na rua, brincando ou brigando, pulando na chuva, na lama. FILOMENA ("Volta" ao presente) − Pulando de galho, não é? Fugir para a lama com aquele padeiro indigente! Não vou te perdoar nunca por teres querido me abandonar. MARIANA − Abandonar? FILOMENA − Ainda bem o ensebado desapareceu! Morto deve estar. Amém! Podias ter casado com aquele velho farmacêutico, um palerma decente e com dinheiro. MARIANA − Se não for com José, será com ninguém. FILOMENA − Estúpida! Homem serve pra nos dar teto e comida. Depois disso é melhor que morram levando para os vermes aquela porqueira que estão sempre querendo meter dentro da gente!(Pausa. Lembra de repente) Ah! e tem as pestes dos filhos! O pior é saber que o nosso ainda será deles! É o calvário do senhor que repetimos neste mundo. Pois bem. Agradece a Ele por estar viva. Não a mim! MARIANA (Senta na borda da cama) − "Viva" estava naquele dia na praça... E tu paraste na minha frente...   FILOMENA (Relembrando, interpreta) − "Vai demorar muito esta vergonha? Estás esperando o quê?" (TOM) E tu, com ar de idiota romântica... MARIANA − "Meu noivo. Vamos casar." FILOMENA (Revivendo, erguida e forte) − Ele não virá. Vamos pra casa. Agora! MARIANA (Desafiadora) − Ele virá, claro que virá. FILOMENA − Vamos evitar a humilhação de mais alguém ficar sabendo deste vexame. O que os vizinhos vão dizer se souberem? Vamos! Levanta daí e vamos pra casa! MARIANA − Ficarei aqui até ele chegar. Gostes ou não. FILOMENA − Falei com ele. MARIANA − Não acredito em ti. O sol que ilumina é testemunha da jura. FILOMENA − Esse sol não adianta. Porque ele não virá. MARIANA – Se o sol veio...

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FILOMENA − Veremos quem tem razão. Filha patética. (Filomena se afasta e vai até a sala, permanecendo nas sombras. Mariana sentada na cama, igual o faria "num banco de praça".) MARIANA − E fiquei esperando, esperando até cair a tarde e começar a chover. (Faz que abre um guarda-chuva) A noite acendeu as luzes da praça. (Luzes do quarto diminuindo pouco a pouco) E nunca mais vi José. Lentamente se dirige à sala. As luzes vão aumentando de intensidade, acompanhando sua chegada. Revivendo o momento da volta de Mariana da praça, (quarto) Filomena impaciente, a aguarda. Vira-se ao vê-la chegar. FILOMENA − Mas olhem só para ela! Enlameada como prostituta abandonada. Eu disse que ele não iria. Quando sair dessa letargia de coitada e desanuviar as ideias, vas entender melhor. Agora tira essa roupa imunda, vá tomar banho. MARIANA ("Voltando" ao presente) − Prestativa e gentil. Protegida do pecado dos outros... FILOMENA − No fundo tu sempre quiseste que fosse assim. Não pretendo ter de ouvir lamentações a esta altura. É tarde demais. E tá na hora de preparar a comida. Vá logo! (Indo para seu quarto) Vou dar uma cochilada antes da comida. (Alto) Espero sobreviver a mais esta! Mariana vai a seu quarto. Ao entrar, a porta do guarda-roupa se abre suavemente, dele sai José. MARIANA − E acreditastes que me abandonar seria o melhor. Agora olha pra mim. Requentando recordações nas panelas de minha mãe... Senta na cama. Ele a ajuda a tirar os sapatos; deita e a convida a fazer o mesmo. Tempo. O casal parece dormir. Filomena levanta, cuidando não fazer barulho vai ao quarto de Mariana. Encosta o ouvido na porta. José a pressente e levanta assustado, entrando imediatamente no guarda-roupa. Filomena entra sem fazer barulho, se acerca da cama, olha fixamente para a filha dormindo. Pé ante pé, vai até o guarda-roupa, procura até encontrar embrulho, dele tira dois pãezinhos, cheira-os e faz caretas. Abaixa-se, pega os sapatos de Mariana; com algum esforço esmaga os pães deixando as migalhas caírem no interior deles; leva a mão à boca, escondendo seu divertimento e volta ao quarto. No meio do caminho... BLECAUTE. TEMPO. "Luz de noite”. Filomena entra ligeira vinda da rua, se livra do manto e do livro de missa jogando-os sobre a mesa e vai direto para seu quarto; do bolso tira envelope que esconde no colchão. Senta para retomar fôlego. Entra Mariana na sala vindo do fundo, vê o manto sobre a mesa.

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MARIANA − Mãe? (Sai e volta pouco depois) Aconteceu alguma coisa? (Filomena se esconde atrás da "porta" do quarto. Mariana vai até lá. Não a vê.) Onde será que a velha se meteu? (Volta a sair pelo fundo) Filomena no quarto assoma a cabeça, constata que Mariana não está à vista; tira garrafa escondida, abre-a no momento que Mariana volta, vindo do fundo. Da sala, ouve o barulho da rolha. Vai ao quarto e flagra a mãe tomando um gole do gargalo. MARIANA − Que está fazendo? (Pausa. Tentando lhe arrancar a garrafa) Me dá isso! Então eram meus refogados que estavam te matando, não é? Velha bêbada! FILOMENA − Não te mete na minha vida, velha maluca!   MARIANA (Pegando a garrafa) − Olha só quem está falando! (Tom) Nessa idade! Deixa o médico saber disso. FILOMENA − E como é que aquele velho idiota vai saber disso? MARIANA − Ora, eu vou dizer a ele. FILOMENA − Se fizeres isso, vou contar teu segredo para todo mundo... MARIANA − Segredo? Que segredo? FILOMENA − Aquele que escondes no teu galinheiro. Esse povo de fariseus adora intrigas. Ficarás mal falada na cidade. Apedrejada até! Eu juro! MARIANA − E isso, essas ameaças por causa de uma garrafa de vinho? FILOMENA − Que é minha! E a quero de volta. (Mariana sai do quarto levando a garrafa) Onde vai? MARIANA − Ao banheiro! Sai. Ouve-se a descarga. Mariana volta. Gritando, da sala. − E agora me deixa dormir! Dorme tu também velha bêbada! Entra no seu quarto. TEMPO. Filomena abre outra garrafa tirada de esconderijo. Bebe em silêncio. Pausa. Tira de algum lugar um estojo de maquiagem. Cantarola enquanto se maquia. FILOMENA − "O vinho faz bom sangue, bom sangue produz bom humor." (Bebe mais um gole, continua a se maquiar.) "O bom humor faz nascer bons pensamentos, bons pensamentos dão origem a boas ações.". (Desnudando os ombros, levantando a saia acima do joelho, faz pose de bailarina de cabaré.)... e as boas ações conduzem a Deus"...Viva Deus!

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(Fica estática, ouvindo sua última palavra, olhos fixos no nada, seu rosto virou uma máscara deformada pela maquiagem exagerada. Pausa. Abaixa a saia, cobre os ombros, tenta se recompor, subitamente constrangida. Olha na direção da platéia. Pausa. Leva as mãos à boca.)   FILOMENA − Alguém viu meu sorriso? (Longo silencio) MARIANA (Deitando. Grita do quarto.) − Vai ficar aí até a meia-noite? Velha doente! FILOMENA (Amarga) − Doente e longa meia-noite. MARIANA levanta o braço e apagam todas as luzes. BLECAUTE. TEMPO. FADE. Luz de dia. Mariana lendo um livro na sala. TEMPO. Do fundo, ouve-se longo barulho de descarga do banheiro. Pausa. FILOMENA (Off) − Boboca! Vem me limpar! MARIANA (Fecha o livro com violência) − Outra vez, dona Filomena!? (Para si) Velha fingida. Isso que dá beber até morrer! FILOMENA (Off) − Mas ainda estou viva! Depois de morta não vai mais precisar! (Pausa) E então? Ela reluta, anda pela sala. TEMPO. Entra Filomena lentamente. Mariana não a vê. Assusta-se quando a outra fala. FILOMENA (Finge não ver ninguém) − Não tem ninguém na casa. MARIANA − Já estava indo. Como tu fez? FILOMENA − Não fiz. MARIANA − Mas não pode... FILOMENA − Sei que não posso sozinha. Por isso não o fiz. Agora que estou sozinha nesta casa, preciso aprender a conviver com minhas próprias sujeiras. MARIANA − Que estás dizendo? Vamos lá, eu te ajudo. FILOMENA − Quem és tu, velha? MARIANA − Mãe, não precisa... FILOMENA − Confusa senhora, não posso ser sua mãe. Só tive uma filha. E ela fugiu há muito tempo com o fantasma de um padeiro indigente. Estou sozinha depois disso, como pode ver. MARIANA − Está toda molhada, isso sim. Vamos, não pode ficar assim... (Ao chegar perto, Filomena tenta dar-lhe um tapa.)

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FILOMENA − Que está fazendo na minha casa, sua desconhecida! Vá embora! Não vai conseguir levar nada. Minha filha, hipócrita depravada, preferiu a genitália de um fantasma, emporcalhando os valores desta casa e envenenando o sacrifício de uma mãe! Nada mais resta, só o martírio de uma velha moribunda. Vá embora de minha casa! Mariana corre para seu quarto. Senta na cama com o rosto entre as mãos. TEMPO. Filomena aproveita o momento. Vai até o móvel e retira algum doce. Sovina, come gulosamente. Mariana no quarto levanta de repente, resolvida, vai pra sala. Surpreende Filomena de boca cheia, o rosto sujo de chocolate. MARIANA − A pobre velha moribunda! Mas, desobediente come às escondidas, “emporcalhando-se" de doces. "Nada mais resta" a dividir, não é? FILOMENA − Ainda está na minha casa?   MARIANA − Se quiser arrebentar vá "emporcalhar" só tua cama, por que eu limpei a casa. Que é minha também! Vá, velho martírio! Vai, porca! FILOMENA − Porca é aquela cama fedida... MARIANA − ...De teus vômitos! FILOMENA − ...Vomito para não morrer envenenada com teus refogados!... MARIANA − ...Então faz tu mesma a maldita comida! FILOMENA − Se pudesse... comigo era limpa e não fedia como certas pessoas que não conseguem viver sem emporcalhar as panelas de más intenções. (De braços abertos) Pai! Por que me abandonaste neste inferno? MARIANA − Deus não tem nada a ver com o inferno que tu criaste! FILOMENA − Mas o inferno é preciso! Sem ele perderíamos as forças que protegem as virtudes. (TOM) As tuas, sempre frágeis, aliás... É o que querias, não é? Se deliciar acariciando a genitália às escondidas... E chama a mim de porca. MARIANA − Já posso ver as portas se abrindo para um novo inferno. FILOMENA − E por que não? Estamos quase mortas, e tu não podes me abandonar. Sem mim, nada existe que te prenda neste mundo, como nunca ouve. MARIANA − Ouve José. FILOMENA − "Aquilo?" Ora, minha aprendiz de pecadora, es tão aborrecida. Carregando a cruz dessas misérias carnais, como um pobre Cristo! Que devia ter aprontado coisa grave, afinal o Pai poderia tê-lo salvado, mas não o fez. Por quê? Culpa, minha filha. Pecado. Disso entendes muito bem.

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MARIANA − Não era o que dizias de Cristo quando eu era criança... FILOMENA − Aquilo era catecismo! Precauções contra as perversões que infernizam a mente das crianças. É uma luta sem fim! É preciso que aprendam a se sentirem culpadas mesmo que ainda não conheçam o pecado. Foi melhor assim. MARIANA − Coitadas das crianças. E de nós. FILOMENA − É verdade. Poderíamos ter tido vida mansa, com as regalias de um rico casamento. Mas graças a tua estupidez romântica... MARIANA − Escolhe outra culpa, velha. FILOMENA − Culpa tenho de ter todas as razões do mundo? Veja eu. Casei com aquele bocó por tua causa! Tu precisavas de um pai para acalmar esse povo faminto de escândalo... MARIANA − Eu? Precisava de um pai? FILOMENA − ...E que foi que ganhei com isso? Como já disse, estamos quase mortas e não preciso esconder mais nada. Tive que casar com aquele imbecil de quem tu sempre perguntavas: (Imitando) −"Como era meu pai, mãe?" − Inventei tudo que sabes. A única verdade é que morreu na noite que tu nasceste. MARIANA (Na defensiva) − Quem era esse outro, o meu pai “de verdade”, mãe? FILOMENA − Ele foi a fonte de meu ódio. E tu, a filha bastarda de um pesadelo. Graças a Deus o patife me abandonou... (Olhando-a fixamente) Cuidado com esse olhar! Nada de esperança! Deixa-te debilitada... (TOM) E querer morrer quando a ilusão passa pela porta de tua casa, de braço dado com uma rameira. (TOM) Melhor o ódio, minha filha! É mais forte e protetor. E nem tenta te aproveitar dessa história suja. Está digerida e evacuada melhor que tuas comidas. E agora me deixa dormir com meu companheiro e santo ódio. Vai. (TOM) Ah, e tem mais, velha. Já contei tantas histórias da carochinha para ti! (Ri. Tosse) Não esquece meu remédio! MARIANA − Já que estamos quase mortas, conta direito a história de como morreu o meu "falso" pai. Pode contar, velha. Vamos nos divertir juntas. FILOMENA − Essa história não é pra teu bico, "velha.” MARIANA − Morreu mesmo ou também ele te trocou por outra. FILOMENA − Não tinha coturno para tanto... Foi numa antiga meia-noite. Os berros daquela criança não paravam... Tu! não paravas de berrar! E aquele imbecil manchado de sangue. Do meu sangue! O palerma com cara de benfeitor! (Se empolgando) Ganias igual

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cachorra! E ele alegre! Rindo com a alegria de um cavalo! Parecia que a filha era dele. De repente seu coração arrebentou. (Tom) Aquele pateta ridículo querendo festejar às minhas custas! Agradecendo a Deus e à vida pelo meu parto! Torci para que tivesses morrido também. Passava da meia-noite. Apaguei todas as luzes e dormi dias. (De repente Filomena apaga a luz do abajur) E já passa da meia-noite. MARIANA (Levantando-se.) − Tu deves odiar toda luz, não é, mãe? (Sai do quarto. Na escuridão total ainda se ouve) FILOMENA − E às lamúrias também! Não se esquece de trazer o meu remédio! BLECAUTE. FADE. Até luz do dia. Entra Mariana na sala, leva bandeja com bule, xícaras etc. MARIANA (Gritando) − Vai tomar o chá na cama? (Filomena na cama permanece imóvel. Mariana vai até lá.) Velha. Acorda. Vamos, deixa de pose. Abre esses olhos.   Mariana a sacode de leve. Pausa. Inquieta-se. A sacode com mais força; tenta levantá-la, mas sem jeito nem força, não consegue impedir que ela vá deslizando até cair da cama; agarrada ao colchão, parte dele levanta. No chão, Filomena acorda. Mariana vai ajudá-la, mas percebe por uma das costuras, alguns envelopes assomando. Divide-se entre a curiosidade e a necessidade de socorrê-la. Vence a curiosidade. Pega um envelope. Dá uma rápida olhada. Espantada com a revelação, deixa-o cair. Ainda atordoada volta-se para pegar outros. São muitos, dezenas. Filomena entende imediatamente o que se passa. Tenta se levantar, sem conseguir. MARIANA − Que maldição mereces, velha traidora? FILOMENA (Semi-erguida, no chão) − Traição daquele desgraçado! O idiota jurou que desapareceria para sempre. Em seguida me aparece a primeira carta! (Pausa) Escondi, claro. Depois do que eu sofri te criando e te aturando, não ia permitir que essas cartas despertassem novamente tuas intenções de me abandonar. (TOM) E além do mais, teria perdido este momento se as tivesse rasgado... (Tosse) Ontem não trouxestes o remédio. Ajuda-me a levantar. MARIANA − Enganada sempre. Obedecendo sempre... FILOMENA − Obediência teria sido casar com o velho da farmácia. MARIANA (Olhando as cartas. Murmura) − "Se não casei com José será com ninguém." FILOMENA − Sempre pensando em si mesma. Aquele velhote da farmácia, além de apaixonado, tinha posses. Depois de morto teria deixado tudo para nós...

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MARIANA (Sem tirar os olhos das cartas) − Envenenado por ti, certamente. FILOMENA − E pra que serve um homem? (Pausa.) Não teríamos passado todos esses anos dependendo das migalhas dessas pobres aposentadorias. MARIANA (Irônica, arrumando envelopes) − Amar é depender do outro. Não é, "mamãe"? FILOMENA (Arrastando-se) − Isso! Dependentes uma da outra, ficaremos juntas nesta miséria até o fim. MARIANA (Preparando-se para sair) − Não, "mamãe.” Enterrarei esta miséria numa cova bem funda. Junto com teu cadáver. FILOMENA (Imitando-se. Com ódio) − "Incapaz de matar uma mosca.” "Mansa como cordeirinho.” (Se arrasta em direção a ela) Simuladora! (Engasga. Pausa) Mas meu ódio não será enterrado comigo, não; ficará pairando no ar que respires, amaldiçoando o dia em que te pari emporcalhada de sangue! (Agarra-se no vestido de Mariana. Esta a repele.) MARIANA − Sangue do teu sangue, "mamãe.” FILOMENA − Devia ter te envenenado naquela meia-noite, maldita bastarda! MARIANA (Olhando as cartas) − Agora que descobri teu segredo, posso ir embora deste sepulcro. FILOMENA − Partir, fugir! Isso também é sonho, velha ridícula! E de ilusões, tu estás infectada! (Subitamente engasga, se assusta. Está piorando) O remédio! (Mariana tira do bolso um frasco, o observa detidamente e o guarda novamente. Filomena adivinha as intenções) Leva ele contigo, maldita! Sem mim, verás que não existe remédio para a peste que te espera lá fora! (Tosse. Pausa, vingativa) Desafasta de uma vez por todas, velha decrépita! Vai-te embora atrás do outro cadáver, por que este aqui é meu! Mariana, sem olhar para ela, que se debate cada vez mais contra o sufoco, ensaia saída. Para na porta, por um instante parece indecisa. Pega alguns envelopes e os guarda. Pausa. MARIANA − Adeus, velha morta! Vai para o seu quarto, senta na cama. Filomena se debate entre estertores que vão paralisando-a até imobilizar-se de vez. Morre. Mariana pega um envelope ao acaso, o abre e lê. À medida que as cartas vão sendo abertas, num outro canto do palco, luz ilumina José de maneira fantasmagórica, irreal; ele fala enquanto ela lê em silêncio.

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Vai para o seu quarto, senta na cama. Filomena se debate entre estertores que vão paralisando-a até imobilizar-se de vez. Morre. Mariana pega um envelope ao acaso, o abre e lê. À medida que as cartas vão sendo abertas, num outro canto do palco, luz ilumina José de maneira fantasmagórica, irreal; ele fala enquanto ela lê em silêncio. JOSÉ − "Já perdi a conta do número de cartas; não sei qual o número desta, mas, que importa? Se tivesses partido de vez, eu saberia. Por que minhas cartas nunca voltaram. Deves estar aí, na mesma cidade onde nos conhecemos. Parti de lá depois de nossa aventura, encorajado pela tua mãe, como já deves saber. Se te levasse comigo, que tinha eu para oferecer, além de minha ternura? Eu, um aventureiro e aprendiz de todas as profissões, com a mala sempre pronta para partir. Fui padeiro na tua cidade, mas também fui motorista e lavrador em outras. Mas, dessa vez, trouxe comigo, dentro da mala, a maior tristeza: te perder. E a única alegria: te amar. Hoje, depois de cada carta que envio, fico sempre esperando algum sinal. E nada. Voltaras do passado? Não dizem que o silencio é o berço da esperança? Esperanças de tolo? Pode ser, mas tenho convivido tanto tempo com esta situação, que agora já é como um vício, dependo dele para levar esta vida que não é totalmente vazia porque estas aqui dentro, junto do meu sangue envolta na penumbra do passado. Mesmo que seja desta maneira louca e solitária. Até a próxima, amor. Para sempre teu, José.” Mariana recolhe outra carta, profundamente emocionada. JOSÉ − "Quantos anos já se passaram desde a última vez que estivemos juntos? Quantos sonhos já tive? E aquele que mais se repete, é onde te vejo chegando neste lugar, de mala na mão. Te vejo abrindo-a e dela escapam centenas de cartas, e como se tivessem vida própria, voam pelos corredores, entram nos quartos até me encontrarem escondido dentro do guarda-roupa. Torcendo para ser denunciado por elas, te vejo pelas frestas vindo na minha direção. No instante em que abrirás a porta, o sonho acaba. Nunca abrirás aquela porta, Mariana? Me despeço até a próxima, amor. Posso te chamar assim? Para sempre teu, José“ Mariana escolhe outra. A luz sobre José vai aumentando de intensidade, como se a sua presença fosse se tornando mais real a cada momento. JOSÉ − "...no silencio triste de meu quarto ouço o barulho do tempo passando pela minha janela aberta, e o vento entra e sacode estas folhas fazendo as palavras dançarem, como querendo fugir. Mas a lembrança de tua voz e de teu corpo, são meus. É para eles que escrevo. A única coisa viva que tenho neste lugar. Por que aqui os velhos estão como mortos. Eu não! O mundo não é pequeno para mim, porque nele estas tu para engrandecê-lo, Mariana. Hoje trabalhei no jardim, arrumando e adornando com flores o caminho da entrada. Um dia chegarás por esse caminho?

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Despeço-me agora, antes de apagar a proibida luz. Até quando? Não sei, amiga. José.” Mariana mais impaciente joga a carta sobre a cama, se abaixa, encontra o par de sapatos onde Filomena esmagara os pãezinhos, derrama o conteúdo. Debaixo da cama, retira velha mala, guarda os sapatos, as cartas, pega algumas roupas das gavetas, enquanto José continua a fala; a luz sobre ele se intensifica, tornando-o cada vez mais "real.” JOSÉ − São estas cartas que mantém minha lucidez e conseguir obedecer os regulamentos desta casa. Elas, essas enfermeiras que nunca riem, ficam atrás de mim querendo saber que cartas são estas que nunca têm respostas. Não me importam que se riam quando dizem que é coisa de velho gagá. Como não me importo de comer essas sopas sem graça nem sal, igual a elas. Ignoro suas fofocas e continuo a esperar. Es o segredo de minha respiração. Sempre teu, José. Ao terminar esta carta, Mariana, pronta para sair, se volta e abre a porta do guarda-roupa. Vazio. Sorri, pega a mala e sai. BLECAUTE. FIM DO PRIMEIRO ATO LOCAL: CASA DOS IDOSOS   O que era o quarto de Filomena à direita, será de Mariana aqui; antes a sala, doravante o hall de entrada da asilo. O de Mariana, à esquerda, é de José agora. O guarda-roupa no mesmo local. FADE até luz de entardecer. No hall, imóvel, Mariana de pé com a mala ao lado. Pausa. Da esquerda aparece José, vestido de branco como nas cenas anteriores. Ao vê-la fica estático. TEMPO. Acercam-se e se abraçam longamente. SEGUNDO ATO

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JOSÉ (Como final de frase decorada, mas exultante) − ...E então chegastes. (Pausa.) Um dia aconteceria. (Preocupado) Estas pálida. Teus olhos tem... MARIANA (Acabrunhada) − Muita noite? Cansada. Ele tira lentamente o casaco de padeiro, o boné, mostrando cabelos brancos (ou calvície), limpa com ele restos de farinhas ainda no rosto, como ator que termina encenação e mostra seu verdadeiro rosto. Mariana não parece se importar ou perceber a mudança. JOSÉ − Vem comigo. Vem. (Ele pega a mala e a conduz até seu quarto. Sentam na borda da cama, se olham por muito tempo. Se tocam, descobrindo-se.) MARIANA − Estamos velhos, José? Olha para mim. JOSÉ − Olhando que estas aqui! MARIANA − Estava com medo que a morte... JOSÉ − Medo do que não se conhece? MARIANA − Minha mãe agora conhece. JOSÉ − Nunca casou? MARIANA − "Sem José, não tem ninguém!", dizia para minha mãe. JOSÉ − Finalmente aqui! (Pausa. Tom) Com quem falastes na entrada? JOSÉ − Finalmente aqui! (Pausa. Tom) Com quem falastes na entrada? MARIANA − Não tinha ninguém. Fui entrando até... Ver-te. JOSÉ − Ninguém te viu chegar? MARIANA (Divertindo-se) − Como a morte: ninguém viu!   JOSÉ − Mariana. Por aqui as coisas são um pouco complicadas, burocráticas. São muito severos eles.   MARIANA − Eles quem? JOSÉ − As enfermeiras, os médicos. Todos. MARIANA − O que eles podem fazer? O que foi que eu fiz?

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JOSÉ (Disfarçando preocupação) – Não dizem que os velhos devem estar sempre ocupados? Muito bem! Estaremos ocupados então! Quero que me contes toda tua vida, desde o dia que sai daquela cidade feito trapo... (Tom) Lestes todas minhas cartas? (De repente se ouve o barulho em OFF, alguém tentando abrir uma porta, batem. José levanta assustado.) Tinha me esquecido dele! MARIANA − Ele? JOSÉ − Meu companheiro de quarto! Se ele te encontrar aqui, tenho certeza que vai dizer a todos que nos viu na cama juntos. MARIANA − Por que ele faria isso? JOSÉ − Ele inventa. Esse sim é um velho gagá. Já fez isso com outros. Foi um escândalo da última vez até descobrirem que era tudo mentira, mas aí já era tarde demais. Melhor se esconder até me livrar dele. (Olha procurando, acha: Abre as portas do guarda-roupa, pega a mala dela, ajuda-a entrar) Entra aqui. Depois veremos o que fazer. MARIANA (Olhando em volta) − Mas, que lugar é este? JOSÉ − Explico depois. Agora entra aí. (Se ouvem mais batidas na porta) Vamos, depressa. (Ela entra no guarda-roupa.) BLECAUTE. TEMPO. José está sentado num banquinho, na frente de pequena mesa, joga damas com seu parceiro, que é muito velho, e está sentado na borda da cama. José olha de vez em quando na direção do guarda-roupa. Impaciente. O homem, de repente se deita. José levanta e abre o guarda-roupa com cuidado. Dele assoma Mariana. MARIANA − José! (Ele faz sinais, ela percebe o homem deitado e abaixa a voz) O que vamos fazer agora? Ele a conduz até o hall. Olha ao redor, temeroso. De repente soa campainha bem alta. Barulho de passos, vozes, portas etc, tudo ensurdecedor. Ele pega Mariana pela mão e saem pelo fundo. BLECAUTE. TEMPO).

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Iluminação "sinistra”. José está no quarto dele, Mariana no dela, à direita. Ambos sentados na borda da cama. Vão se levantando simultaneamente. Os dois encostam-se nas suas respectivas portas. TEMPO. De seus lugares. MARIANA − "Romeu"? JOSÉ – “Julieta”...Fizeram muitas perguntas? MARIANA − Todas estúpidas, José. Por quê? JOSÉ − Porque somos velhos. MARIANA − Nos castigar por isso? JOSÉ − É que aqui os velhos não podem fazer o que querem. MARIANA − Como dividir o prato? JOSÉ − Visitar o quarto do outro.   MARIANA – Ler histórias em voz alta que nos fazem rir. JOSÉ – Passear de mãos dadas pelo jardim. MARIANA − Por que eles fazem isso? JOSÉ − Porque ninguém nos quer lá fora. MARIANA − Quem se importa com lá fora se o que quero está aqui dentro! (Tom) Antes minha mãe, depois o tempo, agora essas pessoas. De quem é a vida afinal? JOSÉ − Deles, Mariana. MARIANA − Quero minha vida de volta, José. JOSÉ − Para isso é preciso fugir... FADE. Até BLECAUTE. José está jogando damas com o companheiro de quarto. TEMPO. Ele está nervoso. O outro vai dormindo até deitar de vez. José mexe de leve para ter certeza. Rápido vai até o guarda-roupa. Dele sai Mariana. Abraçam-se em silencio. (Cochicham) JOSÉ − Vai ser esta noite, minha querida. MARIANA − Estou pronta e ansiosa para te seguir. (Sem eles perceberem, o companheiro vai "acordando") JOSÉ − Todos estes dias de castigo! MARIANA − Não devias ter empurrado aquela bruxa. JOSÉ − Eu sei, mas ela te insultando...Eu... Não consegui evitar. Foi quase sem querer.

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MARIANA − Velho corajoso! JOSÉ − Velho tolo, isso sim. Tudo piorou desde então. Ele percebe o companheiro "ouvindo" a conversa; disfarça, rápido. Ela não percebe a manobra, mas entra no jogo saudoso. Luzes acompanham o momento, piscam e evoluem; música de valsa surge.) Como naquela primeira noite. Me acompanha? MARIANA (Surpresa, mas se deixando levar no abraço) – Ah! Se as pernas fossem asas! (Ensaia uma canção) ‘Ai que lindo é bailar e se deixar levar docemente nos braços queridos. No doce prazer de abraçar-me a meu bem ao sabor da valsa e o amor’. JOSÉ − Gostou de meus pãezinhos engraçados? MARIANA − O senhor é que é engraçado. Onde aprendeu a fazer pães dançar? JOSÉ − Aprendi com outro palhaço e... “Senhor”? Chamam-me José desde pequeno. Gosto de vê-la rir... "Senhorita"?... MARIANA − Meu nome é Mariana. JOSÉ (Sedutor) − Então são dois... Maria e Ana. MARIANA − Na dúvida, minha mãe deve ter preferido os dois. Gostou? JOSÉ − De sua mãe? MARIANA − Do meu nome, seu bobo! JOSÉ − Muito. São as caras da dona. MARIANA − Não tenho duas caras! JOSÉ − Mas vale por duas. Mariana faz o quê? MARIANA − Leciono na escola paroquial. Todas aquelas crianças... JOSÉ − São suas? MARIANA (Rindo) − Claro que não! Sou... Solteira. JOSÉ − Há muito tempo? MARIANA − ...O suficiente. E... Tu? JOSÉ − Também o suficiente. (Olhando ao longe) Aquela é sua mãe? E olhando feio pra cá. Ela é brava? MARIANA − É sim. Mas esta noite não tenho medo de nada!

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JOSÉ − Vamos até o coreto? Podemos dançar melhor lá, mais... Sozinhos. MARIANA − Não sei... JOSÉ − Dançar? MARIANA − ...Se devo. A minha barraca... JOSÉ − A festa está quase no fim. Vamos aproveitar antes de tudo acabar e tua mãe venha tirar-te de mim.   MARIANA − Está bem. Vá na frente. Disfarça... JOSÉ − Não vai fugir... Maria... Ana. MARIANA − Estou muito feliz para fugir! JOSÉ − Tu fugirias?   MARIANA − É claro que não! Já falei que não tenho medo esta noite! JOSÉ − Fugirias comigo.   MARIANA − Contigo? (As luzes mudam subitamente. Música acaba. Silêncio) JOSÉ − Poderíamos ter fugido naquela noite! (Ele percebe que o companheiro voltou a dormir.) Mas desta vez vamos. Sem medo. Vamos escapar esta noite... De todos! MARIANA (Brincando) − "Vá na frente"!   JOSÉ − Juntos desta vez!   MARIANA − Vamos.   JOSÉ − Me dá tua mão.   MARIANA (Apertando-se num abraço) − Leva tudo!   JOSÉ − Pronta?   MARIANA − Desde que deixei minha mãe morta.   JOSÉ − Muito bem. Então ouve o que vamos fazer. Enquanto murmura o plano de fuga, luz sobre companheiro que aparenta estar "ouvindo" a conversa. As sombras que acompanharam a cena anterior, começam a "cercá−los"; gesticulando e segredando o casal sai, seguidos pelas sombras projetadas . TEMPO. FADE. BLECAUTE.  

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MARIANA − Não, amor! Loucura é agarrar-se à vida quando o mundo não nos quer! Vamo-nos daqui! Vem comigo meu querido. Basta de noites e olvidos. Toma. Bebe comigo. (Tira do colo pequeno frasco, o faz beber; também ela o faz.) Nos esconderemos na morte... Com um beijo te levo, amor de minha noite! (Ajuda-o a deitar. Ele obedece com sorriso infantil. Deita a seu lado. FADE até BLECAUTE. TEMPO. Luz intensa ilumina de repente todo o Cenário. O local e o ambiente são os mesmos do primeiro ato. Mariana está sozinha no seu quarto, sentada na cama; cabisbaixa. A porta do guarda-roupa escancarada. TEMPO. Acorda assustada quando se ouve o grito de Filomena ressoando alto pela casa. FILOMENA (Gritando do fundo) – Boboca! Vem me limpar!   Levanta lentamente e vai até o guarda-roupa. TEMPO longo. Dentro dele não há ninguém. Fecha a porta e sai do quarto; atravessando a sala vai atrás do chamado de Filomena.   Sirene alta. Barulhos de passos, correrias, vozes, gritos, luzes vermelhas piscando. TEMPO. Até silêncio total. Entra José do fundo, com aspecto abobalhado; senta na borda da cama. TEMPO. Entra Mariana, também está mudada: parece mais velha, de avental amarrotado, cabelos desgrenhados, abatida. Aperta com força o decote (onde esconde remédio). Pára no meio do hall; hesita, mas vai para o quarto dele; ao chegar bem perto da porta, imediatamente luzes começam a piscar no hall. Percebendo, não se importa, entra e senta ao lado dele. MARIANA (Sem olhar para ele) − Meu corpo está frio. Pobre corpo dolorido e humilhado. Que rancor naquelas pessoas! Vingativos e cruéis como o deus celeste de minha mãe! Seria o desenterrado ódio de minha mãe? (Pausa) Antes, quando a memória dos momentos que passamos junto me fortalecia, a velhice estava só nas minhas rugas. (Percebe que ele está ausente. O acaricia) Depois, ao te saber vivo, a ilusão de mudar a vida me iluminou como as luzes daquela praça antiga... Agora estou velha, por fim. (Resolvida, levanta e puxa-o pelas mãos) Vem, José, vamos dançar! Apaguemos nossa luz para que nos percam na escuridão! Vem comigo pássaro meu! Ainda que feridos, vamos voar!   JOSÉ (Balbuciando feito criança) − Não me importa estar morto. (Como acordando) Estamos loucos?   FIM

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Summary: Peça de teatro, dramaturgia

Tags: drama tragedia atrizes atores teatro dramaturgia

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