O GATO DO VIZINHO

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de Miguel A. Fernandez© Conto inspirador de projeto para novela O ATO DO VIZINHO© A contribuição e o apoio de Edite Candelária permitiram a realização deste E-conto

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eram adventícias de circunstâncias imprevisíveis; nesse bojo, decorreu o fruir da solidão e sua intrínseca aversão a ruídos inúteis, incluindo conversas, a maioria delas dispensáveis naquele despojado cenário; para este quase eremita, ninguém o visitar tinha certo encanto, se sobrepondo à melancolia que, traiçoeira, o surpreendia na maioria das vezes em períodos festivos, dos que agrupam familiares e amigos. Entretanto, havia alguns meses e superando as indiferenças protetoras, uma exceção aparecera se pavoneando pelas bordas dos altos muros que rodeavam o terreno, atraindo sua atenção: Um grande gato siamês. Nas primeiras vezes, o bicho respondera aos seus chamados com apatia ou bufando miados hostis, arreganhando os dentes como resposta. Por pura diversão, pacientemente, Graciliano o atraíra aos poucos, fazendo questão que ele o visse arremessando restos de alimentos por sobre o muro, onde parecia ele reinar. Passados alguns dias, percebera que as tentativas de sedução tinham dado certo: numa manhã, deu de cara com ele postado no quintal, como a esperá-lo. Mas o orgulhoso invasor pouco arrefecera sua hostilidade defensiva ao vê-lo. Rosnou mostrando os dentes. - Disfarce. Era o início de uma amizade que durara até hoje. Imaginando que já devia ter um nome a que respondia há anos, nem tentara batizá-lo; então o chamava de “Gato”, “Tigre”, “Gordo” ou qualquer nome que lhe ocorrera no momento das suas visitas, que podia ser a qualquer hora do dia ou da noite. E sem prévio aviso. Se demorava a voltar, talvez da casa onde fora criado – localidade distante, devia ser, porque das comedidas pesquisas com vizinhos das redondezas, ninguém soube informar origem ou falta dele –, não conseguia deixar de sentir o desassossego de sua ausência. Mas quando instalado em seu colo, entre um cafuné e outro, Graciliano dialogava com o gato como se fosse gente.

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Minutos depois, ao se dar por satisfeito, o siamês espreguiçou e procurou: “Tem água?” “T’aqui,” replicou Graciliano, oferecendo vasilha com água fresca. Depois de beber, o gato sacudiu o bigode, lambeu os beiços e disse: “Uma cochilada agora ia bem”. “Teu lugar preferido está à disposição,” sorriu o velho, sinalando a velha poltrona de plástico com o assento coberto de roídas almofadas. “Nunca tive um lugar preferido, mas aí está bem,” sussurrou o peludo subindo no assento de um pulo. Começou a lamber patas e pele, penteando os pêlos cuidadosamente com sua língua rosada. “Isso é tomar banho?” perguntou o velho, divertido. “Como deve ser, antes de dormir. Detesto água e o sabão que aquela fêmea usa para me irritar”. “Então tua dona é uma moça!” Interrompeu, festejando a descoberta. “Ela cuida de mim desde que lembro. Isso deve fazer ela se achar dona de mim. Sim, deve ser minha proprietária.” “Gosta dela?” quis saber Graciliano. “Não sei ao certo. Me alimenta com sobras de suas comidas estranhas, mas não me mete medo. Prefiro essas coisas que você me serve. Cheiram bem e tem sabores de que gosto.” “Então você gosta daqui?” Indagou o velho, disfarçando o embaraço da pergunta. A resposta não justificou a demora: “Não pretende me dar banho, me faz afagos de que gosto, não faz muito barulho, fala comigo, me alimenta generosamente e... como sei não me fará mal nenhum, posso cochilar sem medo nesta casa. Isso deve ser ‘gostar’.” Logo o gato bocejou, se acomodou para dormir e, ronronante, explicou: “Agora preciso descansar para mais tarde voltar de onde venho. O caminho pelos tetos é longo, difícil e perigoso.” Detesto água e o sabão que aquela fêmea usa para me irritar Agora preciso descansar para mais tarde voltar de onde venho E de tanto conversar e adivinhar as respostas ou comentários, não se surpreendeu quando o gato falou com ele. A primeira vez foi uma resposta à pergunta tantas vezes feita assim que ele assomava no pátio ou na porta da cozinha: “Ta com fome, gato?” “Muita”, ronronou ele. “T’aqui,” ofereceu o velho com naturalidade, indicando a travessa com a ração que começara a comprar religiosamente, de moeda em moeda subtraídas de sua acanhada aposentadoria.

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Os homens por esses arrabaldes costumam matar gatos como matam pombas e a um e outro vizinho, se metido a besta, sabia Graciliano, e disse. “Sim, sim, à vontade.” Ia perguntar ao bicho “Quer que apague a luz?” Mas preferiu não dizer mais nada; havia tempo descobrira que vendo seu amigo dormir à vontade, assim, perto dele, a melancolia ocasional se esvaia convertendo-se em orgulhosa responsabilidade e, secretamente, ficava agradecido pela confiança concedida. Saiu da cozinha com cuidado e foi sentar no pátio. Tirou os óculos, e com a borda da camisa limpou as lentes umedecidas pela mesma alegria que sentia recebendo um presente quando criança nas festas de seus aniversários; olhando o céu estrelado, e sem outro interlocutor, disse à lua cheia: “Quando acordar perguntarei seu nome!” FIM (Segue em Parte II: http://www.slideboom.com/presentations/610509/

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Summary: Conto, início de uma projetada novela

Tags: gatos animais fantasia siames literatura

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