O GATO DO VIZINHO2

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de Miguel A. Fernandez© Conto inspirador de projeto para novela O ATO DO VIZINHO2 A contribuição e o apoio de Bernadete De Lourdes Beheregaray permitiram a realização deste E-conto Sempre se perguntando o que teria provocado esse sumiço, sua apreensão crescera à medida dos dias se sucederem sem o amigo dar as caras ou os bigodes e, mesmo considerando não ter esse direito, desde que o “gato não era dele” e sim de ignorada vizinha dos arredores, sentia-se inconformado que ele saísse por aí, procurando saciar fome, proteção ou afeto, com todos os perigos inerentes, quando bem sabia que podia encontrar tudo isso em sua casa e à disposição; algo constrangido admitia esperar do gato um mínimo de fidelidade. Então, no quarto dia, o gato finalmente reapareceu. Mas o contentamento de Graciliano ofuscou-se logo que o amigo entrou pela porta da cozinha; ignorando-o, o gato passou ao seu lado e com estranha tensão, imediatamente auscultou todos os cantos do lugar, como se fossem recém descobertos; só depois dessa prévia e demorada pesquisa, pareceu se acalmar e, como se só então o tivesse notado, fez os agrados costumeiros aos amigos: com o rabo em riste, roçou seu corpo nas pernas dele, abaixou-se para cheirar seus pés e esfregar as orelhas neles; permitindo que o acariciasse, ronronou, porém, mesmo quando lhe foi servida a ração, permaneceu ostensivamente vigilante; enquanto a devorava, voltava-se a observar, pela porta entreaberta, o muro circundante que por ela podia se ver.

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Curioso e culpado pela sua desatenção, Graciliano, deduzindo que seu amigo estaria procurando sinais de presenças que delatassem intrusos ou perseguidores, assomou-se e depois percorreu o pátio atrás de um motivo, procurando algum perigo. Sem perceber nada de anormal, voltou ao interior da cozinha e observou que o bicho se dera por satisfeito e já bebia sua água; a seguir, em lugar de pular na poltrona costumeira, sempre pronta a recebê-lo, preferiu se deslizar em direção ao quarto, bem distante da porta da cozinha; acomodando-se num canto, na aconchegante penumbra de uma prateleira, preparou-se para dormir, sem deixar de observar os movimentos de Graciliano que, influenciado pelo peludo amigo, aprendera a se deslocar silenciosamente, na mútua aversão por barulhos inúteis. Haviam se passado algumas horas, durante as quais Graciliano debruçara-se na continuação da leitura de um livro, quando um ruído desconhecido, provindo da cozinha, chamou-lhe a atenção. Com cautela foi até lá, e um arrepio lhe eriçou os pêlos da nuca ao surpreender o intruso devorando o que restara na vasilha: um gatarrão nédio, forte, rajado de tons cinza, mostrando uma característica inédita num bichano dessa espécie: em lugar de longo rabo, havia um toco curto e torto. Ao vê-lo entrar, os olhos de ouro do bicho fixaram-se nos dele e, antes de Graciliano sequer abrir a boca – ou fechá-la, devido à surpresa e à certeza de ter descoberto o motivo do receio de ‘seu’ amigo –, sentindo-se acuado, o animal, retesado, ameaçou avançar em sua direção; Graciliano ia berrar qualquer hostilidade para espantar o desconhecido, afinal, a casa tinha alguém responsável pelo que pudesse acontecer nela – e com suas visitas –, mas calou ao lembrar que desse modo alertaria o ‘seu’ que, no quarto, devia ignorar o que estava se passando e não pretendia provocar uma batalha, aonde muito provavelmente, o ‘seu siamês’ não ia se sair bem numa refrega com tamanha fera. O bicho pareceu aproveitar a hesitação e atravessou velozmente por entre seus pés, desaparecendo num átimo cozinha afora; Graciliano correu atrás, aumentando seu sobressalto ao dar com ele no pátio, imobilizado a poucos metros de distância, numa pose que sugeria desafio, mirando-o como sopesando se a agressividade do homem era perigosa o bastante para sua integridade. Graciliano avançou sobre ele girando os braços com espavento, feito hélices;

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avaliando a periculosidade, o rabicó preferiu fugir e lançando um último olhar, pulou os obstáculos que obstruíam alcançar os altos muros das casas vizinhas e desapareceu. Recuperado o fôlego, após o duelo silencioso, Graciliano foi espiar no quarto: lá encontrou o Gato do vizinho que, ainda meio oculto pelas sombras da habitação, podia ser visto sentado sobre as patas traseiras; olhando em torno, disse “Entendeu minha covardia?” Tinha entendido e, apertando-lhe as orelhas, o velho lhe sacudiu levemente a cabeça peluda, como fazia sempre que lhe era permitido; depois disso, o gato demorou-se a voltar a deitar, mas, quando o fez, permaneceu com um olho semiaberto. Depois, como das outras vezes, quando o ponteiro do relógio marcou 22h, o gato espreguiçou-se e, na cozinha, comeu mais alguns bocados que o velho voltara e lhe servir; após beber água o bastante, preparou-se para ir embora. Com o mesmo pesar que se repetia nesses momentos de pequenos adeuses, Graciliano abaixou-se e apertou uma das orelhas do felino, e quis dizer “Não gosta de mim o bastante para ficar?”, mas pronunciou “Não gosta daqui?” O gato coçou a orelha e ronronou: “Meu amigo, essa força que me obriga a voltar aonde nasci, é minha batalha diária... – fez uma breve pausa e agregou, circunspeto –, ...junto aos outros obstáculos nesse ir e voltar para este seu lugar, driblando perigos sabidos ou inesperados, como esse ameaçador outro que até duvido seja da minha espécie...” e, sacudindo o longo rabo, observou ao redor “... temo que pretenda tomar o território que terminou por descobrir, mesmo que eu tenha tentado despistar quando notei que me seguia.” “Não deixarei que isso aconteça!” asseverou Graciliano. O felídeo retraiu as unhas e, lânguido, lambeu uma das patas. Arrumou os bigodes e dando uma piscadela disse: “Não prometa o sucesso antecipadamente, meu amigo. A decepção acarreta sofrimentos inúteis.” Fez uma pausa e agregou: “Mas voltarei”. “Vai demorar?” quis saber Graciliano. Se afastando lentamente, o bicho murmurou: “Queria poder escolher o tempo, onde ficar e com quem, meu amigo. Do muito que não entendo, tem mistérios inesperados que nos conduzem a fazer o que nem sabíamos que devemos fazer.” Entendeu minha covardia?

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Provindo da escuridão da noite, por onde o gato desaparecia lentamente e ainda tenso a observar as sombras, Graciliano ouviu: “este estranho impulso que não considera as ocasiões favoráveis ou desfavoráveis, devia estar no que bebi do corpo... de onde vim.” O silêncio fechou a porta e, com ele, Graciliano deitou-se na escuridão de seu quarto. “Até amanhã, meu amigo”, torceu o solitário. E um minuto antes de dormir, estalou um: “Amanhã vou perguntar seu nome! Sem falta...” Na manhã seguinte, bem cedo, como de costume, Graciliano preparava seu café quando ouviu seu nome ser gritado. Assomou na porta da cozinha e do portão de ferro da entrada de seu “território” gritava o senhorio: – Seu Graciliano! Bom dia... Tenho visto uns gatos indo e vindo por esta área. É isso mesmo? – Bom... Di-dia. – gaguejou Graciliano. – Não permita, viu? Esses bichos viram praga se deixar. Tem que acabar com eles. Me avise se precisar de ajuda. Ta’bão? – Sim. Claro... Bom... Dia! – continuou Graciliano se esforçando para não gaguejar. – Tá, tá’bão. Bom dia! – mastigou o homem, indo embora algo irritado com a falta de entusiasmo do velho . – Claro. Bom-bom... Di-dia. – tartamudeou Graciliano. O leite fervendo derramando no fogão, nem chamou sua atenção. Instintivamente, correu até onde estava o pacote de ração, apertou-o contra o peito; olhando em redor, receoso, procurou um lugar seguro para escondê-lo e ninguém descobrir sua culpa. Em especial o locador mal encarado. O seu IFA* lhe alertava sobre aquele homem ser capaz de coisas temíveis. E lembraria por muito tempo disso. ---------- *Instinto Felídeo Adquirido. FIM DA PARTE 2 / Clique Para ler Parte 1 (Aguarde parte 3)

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Summary: 2ª PARTE DE CONTO

Tags: gatos animais siames

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